O recado do Manu

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Morreu hoje meu colega – de faculdade, de profissão e de solidariedade ao povo brasileiro – Manoel Góis.

Nos tempos de universidade, veterano deste que era calouro, era o Manoel Walter, adversário nas disputas de movimento estudantil.

Depois, para a minha geração de jornalistas, o Manu, apelido das amizades que ergueu em toda a carreira e convívio.  Eu nem era dos mais próximos, mas nos encontros e nos chopes,  aprendemos a ter dúvidas sem jamais deixarmos de ter certezas.

Pense num sujeito agressivo e intolerante e terá o inverso do Manu, um dos personagens mais gentis que conheci.

Hoje, na hora de sua morte, outro colega, Rogério Marques, trouxe um dos últimos recados do Mani aos jovens que não conseguem entender que uma ditadura é breu, injustiça, dor e morte.

Um documento, de há 40 anos, da arapongagem da Radiobras, onde se registra que Manu, estagiário, foi demitido por lamentar a ausência de um colega, que havia sido preso pelo regime.

Só isso, por lamentar a ausência de alguém numa festa de Natal, nada mais.

Ele próprio publicou o documento, quando o obteve nos arquivos da ditadura, com um recado:

 Este dossiê lembra que toda esta mediocridade canalha não pode voltar e serve também para calar os fascistas que defendem estes anos de opressão.”

Daqui a dois meses, quando tivermos nossas confraternizações, vamos dizer o que ele disse: que a festa seria mais alegre se estivesse ali o Manoel Walter de Góis, o Manu, levado pelas únicas mãos que têm o direito de levar uma vida: as do tempo.

Um companheiro de lidas e lutas que, sendo doce, jamais entregou a rapadura a esta gente má e desprezível, que persegue porque é pequena e e que odeia porque é má.

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4 respostas

  1. Conheci Manu aqui em Salvador,trabalhando no jornal a Tarde através de uma amiga tb jornalista, Sueli,estávamos em plena ditadura,no tempo que o PMDB era MDB,e era o partido mais progressista.Me lembro que fomos um grupo a maioria jornalistas,para uma festa na Boca do Rio,dia das bruxas,patrocinada pelo PC do B que na época estava na clandestinidade,e havia alguém tirando fotos,ríamos e dizíamos os aropongas estão por aqui,apesar do clima opressivo,o grupo do Rio era de pessoas, alegres e irreverentes,Rosa,Denise e jorge
    moravam na Barra ,próximo ao hospital Português,No domingo de manhã o Manu, ia ler o jornal do Brasil no Cristo e andar pela Barra.Estive com ele aí no Rio o ano passado,quando levou a mim e aminha neta par a conhecer o Museu do Amanhã, estava feliz por ver aquela área do Rio antes degradada,está se recuperando e com muitos projetos,fomos também ver uma peça no Teatro da CEF com seu filho Bernardo.Apaixonado pelos filhos,estava sempre falando do Bernardo,e do Breno e da Bia sua neta,uma artista.Ha muito para falar dessa figura linda que é Manoel,prefiro falar ainda no presente,pois como diz Borges em um dos seus contos,os amigos queridos, nunca morrem para nós pois estarão sempre presente em nossas lembranças.

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