O sequestrador Bolsonaro e a síndrome de Estocolmo

Se há um mal que o bolsonarismo fez e faz ao país é o fato de ter promovido o sequestro de símbolos, uma infinidade deles, desde os considerados sagrados até os profanos.

Da camiseta da Seleção ao nome de Deus, procurou e procura transformá-los em imagens de seus adeptos, como se aos demais não fosse lícito e normal torcer ou crer.

Isso não teria importância e não faria mal ao país se não houvesse, como resultado disso, uma espécie de “Síndrome de Estocolmo”, aquele famoso caso de quase 5o anos, onde quatro sequestrados durante um assalto a banco passaram, mesmo depois de libertados, a assumir uma postura simpática aos sequestradores.

Quando se vive um grave perigo ou ameaça, como nos levaram a viver no colapso provocado pela explosão de frustrações nacionais que experimentamos de 2013 ao golpe de 2016, não é difícil entender porque prosperou a imagem de um pária da política, sem partido e com uma trajetória, que prometia ser a volta a um passado que, embora imaginário, parecia muito melhor do que o futuro.

Desde quando a extrema-direita brasileira adotou Jair Bolsonaro como personificação de seu projeto político-eleitoral ele ampliou sua sinfonia de horrores para outros temas além da monocórdia defesa (basicamente econômica) dos militares. Deus é chamado aos seus discursos e ele se toma emprestado o verde-amarelo de que MBL e outros “coxinhas” tinha se apropriado em 2014 para personificar em si um nacionalismo que abandonou o viés econômico e passou a ser apenas uma “tradução cromática” do modelo Donald Trump.

O seu “batismo” no Rio Jordão, realizado em 2016 pelo Pastor Everaldo – hoje solto sob fiança – é também um curioso mix de oportunismo: batiza-se numa igreja evangélica mas continua se declarando católico, um “ecumenismo” que permite se habilitar ao voto de ambas as confissões, para quem acha que isso é definidor do voto.

Mas nada passaria de hipocrisia se, com este discurso, identificasse com sua personagem tanto os “patriotas de camiseta” quanto os que confundem a ideia de Deus com a um “clube de convertidos” que seriam delas proprietários, únicos e exclusivos.

Nem se não originasse uma simplificação maniqueísta da vida social, na qual se proclama que o confronto é “entre o bem e o mal” ou “entre Jesus e Demônio”.

A eleição de 2 de outubro é, por isso, um resgate da liberdade religiosa e do nacionalismo, hoje atados a um personagem sem compaixão humana e da cúmplice da alienação do patrimônio nacional.

Haverá, é certo, nos primeiros tempos, quem se agarre à “Síndrome de Estocolmo”. Mas a realidade, à maioria deles, os trará de volta. O resto, afinal, irá para onde Jair Bolsonaro estava, quando era um simples saudoso da ditadura.

 

 

 

 

 

 

 

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