Os “A+” e a morte dos invisíveis

A estupidez e a ignorância são coisas tão vergonhosas que, é claro, precisam esconder-se sob o manto do é “minha opinião”, porque expostas cruamente revelariam todo o horror que elas representam.

Lembro-me que, no início desta pandemia, algumas vezes tive de argumentar com pessoas que usavam e abusavam do que chamo de “Argumento A+“.

Não, não é um tipo sanguíneo, é aquela visão negacionista que tenta legitimar um mal pelo fato de haver outros males:

—Ah, mas a dengue mata mais que o coronavírus; Ah, mas as pessoas não podem se isolar porque precisam trabalhar; Ah, mas os acidentes de automóvel matam mais que o Covid 19; Ah, mas todo mundo vai contrair o vírus mesmo, mais cedo ou mais tarde…

Nada disso, claro, foi ou é mentira em si.

Mas acaba por servir a monstruosidades como a de mandar o povo sair indefeso para debaixo de uma chuva de flechas e dizer-lhe que isso só matará alguns.

E, novamente, é verdade que morrerão alguns.

Mas tudo isso que nos entrega à fatalidade é, de alguma forma, a aceitação de uma lei da selva moderna: a de que os mais fortes sobreviverão e os mais fracos perecerão, como seria mesmo inevitável.

“É da vida”, diz nosso presidente.

Sim, é, mas não é da civilização, não é da humanidade – coletivo que nos diferencia de todas as outras espécies animais – e não é daquilo que toda a organização social e o desenvolvimento intelectual tornou próprio ao ser humano.

Mais, embute o pior do que as deformações sociais puderam produzir: a desigualdade.

É preciso que os pobres trabalhem, que nos sirvam, que nos atendam, que nos façam a comida, que limpem as casas, que apertem parafusos e embalem produtos.

Se alguns, ainda que sejam milhares, vão morrer, “é da vida”.

Nisto, quem sabe, o novo coronavírus está sendo simbólico, desde seu primeiro caso no Rio de Janeiro.

A doença começou pelos mais abastados, viajantes vindos do exterior, de seu passeios ou fainas lá fora. E daí passou para os que os serviam.

Todos lemos sobre os contágios havidos em festas chiques, em encontros de gente que se acha célebre, todos nos comovemos com os casos que iam surgindo, ameaçando ou levando as vidas de quem, ao menos, tinha uma chance de isolar-se – “cumprir a quarentena”, disse-se muito – ou mesmo de encontrar um leito de terapia intensiva.

Triste e cruel? Sim, e muito, porque a ideia de que alguém morra sufocado, sem ar nos pulmões, só e sem a mão de alguém na sua é ruim, é má, mesmo que fosse para o pior dos homens.

Mas, como toda doença infecciosas, o novo coronavírus foi migrando justo para aqueles que não puderam ter acesso à sua única terapia conhecida, o isolamento. O Covid-19 mudou-se para as periferias e lá segue sua obra de devastação.

Pode-se entender, por isso, que as pressões sobre os governantes – que lá só passam em épocas eleitorais – para que se reabram os shoppings e praças estejam fazendo efeito, mesmo que as tabelas de mortes e de doença sigam, ainda, em ascensão.

Como a democracia, o vírus também se torna censitário e passa a despertar a mesma perplexidade do “cidadão de bem” que não se conforma de que o voto da faxineira, como a vida dela, valha tanto quanto o quanto para ele.

Agora, a não ser pelas banalizadas imagens de UTI e pela contabilidade apresentada ao final dos dias, a pandemia vai ficando invisível, como é invisível a vida desta massa imensa de brasileiros.

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