Paulo Coelho narra torturas e pergunta se é isso que o ‘Mito’ festeja

Ninguém duvida do alcance do escritor Paulo Coelho, que já vendeu mais de 200 milhões de livros mundo afora e segura o título de best-seller nos Estados Unidos com seu O Alquimista.

Pois a manobra de Jair Bolsonaro criando a “onda” de promover manifestações militares pelos 55 anos do golpe de 1964 arranjou mais essa para os militares brasileiros: um artigo do escritor para o The Washington Post, contando a sua experiência ao ser preso e torturado pela ditadura brasileira.

Leia abaixo:

Paulo Coelho: fui torturado pela ditadura do
Brasil. É isso que Jair Bolsonaro quer celebrar?

Paulo Coelho, no Washington Post

28 de maio de 1974: um grupo de homens armados invade meu apartamento. Começam a revirar gavetas e armários – não sei o que estão procurando, sou apenas um compositor de rock. Um deles, mais gentil, pede que os acompanhe “apenas para esclarecer algumas coisas”. O vizinho vê tudo aquilo e avisa minha família, que entra em desespero. Todo mundo sabia o que o Brasil vivia naquele momento, mesmo que nada fosse publicado nos jornais.

Sou levado para o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), fichado e fotografado. Pergunto o que fiz, ele diz que ali quem pergunta são eles. Um tenente me faz umas perguntas tolas, e me deixa ir embora. Oficialmente já não sou mais preso: o governo não é mais responsável por mim. Quando saio, o homem que me levara ao DOPS sugere que tomemos um café juntos. Em seguida, escolhe um táxi e abre gentilmente a porta. Entro e peço para que vá até a casa de meus pais – espero que não saibam o que aconteceu.

No caminho, o táxi é fechado por dois carros; de dentro de um deles sai um homem com uma arma na mão e me puxa para fora. Caio no chão, sinto o cano da arma na minha nuca. Olho um hotel diante de mim e penso: “não posso morrer tão cedo.” Entro em uma espécie de catatonia: não sinto medo, não sinto nada. Conheço as histórias de outros amigos que desapareceram; sou um desaparecido, e minha última visão será a de um hotel. Ele me levanta, me coloca no chão do seu carro, e pede que eu coloque um capuz.

O carro roda por talvez meia hora. Devem estar escolhendo um lugar para me executarem – mas continuo sem sentir nada, estou conformado com meu destino. O carro para. Sou retirado e espancado enquanto ando por aquilo que parece ser um corredor. Grito, mas sei que ninguém está ouvindo, porque eles também estão gritando. Terrorista, dizem. Merece morrer. Está lutando contra seu país. Vai morrer devagar, mas antes vai sofrer muito. Paradoxalmente, meu instinto de sobrevivência começa a retornar aos poucos.

Sou levado para a sala de torturas, com uma soleira. Tropeço na soleira porque não consigo ver nada: peço que não me empurrem, mas recebo um soco pelas costas e caio. Mandam que tire a roupa. Começa o interrogatório com perguntas que não sei responder. Pedem para que delate gente de quem nunca ouvi falar. Dizem que não quero cooperar, jogam água no chão e colocam algo no meus pés, e posso ver por debaixo do capuz que é uma máquina com eletrodos que são fixados nos meus genitais.

Entendo que, além das pancadas que não sei de onde vêm (e portanto não posso nem sequer contrair o corpo para amortecer o impacto), vou começar a levar choques. Eu digo que não precisam fazer isso, confesso o que quiser, assino onde mandarem. Mas eles não se contentam. Então, desesperado, começo a arranhar minha pele, tirar pedaços de mim mesmo. Os torturadores devem ter se assustado quando me veem coberto de sangue; pouco depois me deixam em paz. Dizem que posso tirar o capuz quando escutar a porta bater. Tiro o capuz e vejo que estou em uma sala a prova de som, com marcas de tiros nas paredes. Por isso a soleira.

No dia seguinte, outra sessão de tortura, com as mesmas perguntas. Repito que assino o que desejarem, confesso o que quiserem, apenas me digam o que devo confessar. Eles ignoram meus pedidos. Depois de não sei quanto tempo e quantas sessões (o tempo no inferno não se conta em horas), batem na porta e pedem para que coloque o capuz. O sujeito me pega pelo braço e diz, constrangido: não é minha culpa. Sou levado para uma sala pequena, toda pintada de negro, com um ar-condicionado fortíssimo. Apagam a luz. Só escuridão, frio, e uma sirene que toca sem parar. Começo a enlouquecer, a ter visões de cavalos. Bato na porta da “geladeira” (descobri mais tarde que esse era o nome), mas ninguém abre. Desmaio. Acordo e desmaio várias vezes, e em uma delas penso: melhor apanhar do que ficar aqui dentro.

Quando acordo estou de novo na sala. Luz sempre acesa, sem poder contar dias e noites. Fico ali o que parece uma eternidade. Anos depois, minha irmã me conta que meus pais não dormiam mais; minha mãe chorava o tempo todo, meu pai se trancou em um mutismo e não falava.

Já não sou mais interrogado. Prisão solitária. Um belo dia, alguém joga minhas roupas no chão e pede que eu me vista. Me visto e coloco o capuz. Sou levado até um carro e posto na mala. Giram por um tempo que parece infinito, até que param – vou morrer agora? Mandam-me tirar o capuz e sair da mala. Estou em uma praça com crianças, não sei em que parte do Rio.

Vou para a casa de meus pais. Minha mãe envelheceu, meu pai diz que não devo mais sair na rua. Procuro os amigos, procuro o cantor, e ninguém responde ao meus telefonemas. Estou só: se fui preso devo ter alguma culpa, devem pensar. É arriscado ser visto ao lado de um preso. Saí da prisão mas ela me acompanha. A redenção vem quando duas pessoas que sequer eram próximas de mim me oferecem emprego. Meus pais nunca se recuperaram.

Decadas depois, os arquivos da ditadura são abertos e meu biógrafo consegue todo o material. Pergunto por que fui preso: uma denúncia, ele diz. Quer saber quem o denunciou? Não quero. Não vai mudar o passado.

E são essas décadas de chumbo que o Presidente Jair Bolsonaro – depois de mencionar no Congresso um dos piores torturadores como seu ídolo – quer festejar nesse dia 31 de março.

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29 respostas

  1. O Bozo é um insano, como insanos são boa parte dos seus eleitores que colocaram essa aberração da natureza na presidência do Brasil.

    1. Tão insanos quanto ele são os generais que o empalmaram ao poder e se empoleiram nos cargos de mando do país como um bando de gafanhotos. O fizeram através da intimidação do stf e através da aliança com o inimigo externo que numa guerra híbrida coloniza o país por meio de agentes internos, os quais comanda e controla,

  2. Uma narrativa de tirar o fôlego e que nos deixa com uma profunda revolta com o que está acontecendo no Brasil. Mas ao mesmo tempo emerge uma certeza de que este transe atual TEM que passar. NÃO é possível que tanta mentira, tanta canalhice, tanta ignorância, tanta estupidez triunfem e se estabeleçam por muito tempo. O Brasil TEM que acordar.

    1. Como Paulo, quantos outros milhares não passaram pela mesma situação, e hoje, não podem mais contar os seus martírios? Foram criminosamente calados.

  3. Bolsonaro resolve esse problema de modo bem fácil: Basta dizer que o Washington Post é um jornal comunista e que o Paulo Coelho é um marxista cultural que, se foi torturado, foi porque mereceu.

  4. Celebrar a ditadura é uma aberração…..O presidente se cerca de militares como se eles fossem um “bunker” que o protegesse de qualquer reação da sociedade. Os tempos são outros. Já está passando da hora de JAIR percebendo isso.

  5. Os militares assaltaram o poder em 1964 para evitar no Brasil o comunismo assim como Bolsonaro foi eleito para impedir a distribuição de mamadeira de piroca para as crianças.

  6. É mais um tiro da arminha do coisonaro que sai pela culatra. Servirá para reforçar a memória do que foi a ditadura e ampliar a consciência.

  7. BOLSOBOSTA é um vagabundo desequilibrado e desqualificado para o cargo que “exerce”. Em TODOS os sentidos possíveis.
    PQP !

  8. Bolsonaro resolve esse problema de modo bem fácil: Basta dizer que o Washington Post é um jornal comunista e que o Paulo Coelho é um marxista cultural que, se foi torturado, foi porque mereceu. Quanto aos bolsomínions, não leem nada e têm raiva de quem lê.

  9. Parabéns à juíza Ivani Silva da Luz, da 6ª Vara da Justiça Federal em Brasília, por tão simplesmente cumprir bem sua função nesses tempos de judiciário periclitante.

  10. Como pergunta o Tiririca em “Florentina”, quem é o cantor ? Seixas ? … E quem o denunciou (a ele, Paulo Coelho) ? Dez contra um como foi o próprio que cantava, em “Eu também vou reclamar”, pérolas retrógradas como estas: “Olho os livros Na minha estante Que nada dizem De importante Servem só pra quem Não sabe ler” e mais ainda: “E a empregada Me bate à porta Me explicando Que tá toda torta E que já não sabe O que vai dar pra mim comer”… Uma bestamorfose ambulante que gregos e troiados incensaram unanimemente, acriticamente, e que mesmo ungido ainda reclamava de “Atlantas colossais, que eu não soube como utilizar”… Já pensou se tivesse sabido, o menino esperto ? Belchior e Sílvio Brito que o digam … Citados desairosamente pelo bicho-papão comedor de empregada, a canção de Sílvio “Pare o Mundo Que Eu Quero Descer” fez sucesso, sendo que a mesma foi citada na canção “Eu Também Vou Reclamar”, de Raul Seixas. Em “Pare o Mundo Que Eu Quero Descer”, Sílvio protestava contra o excesso de impostos, desagradando a ditadura, devido ao refrão: “Tem que pagar pra nascer, tem que pagar pra viver, tem que pagar pra morrer”.”… Já o cearense Belchior era, segundo o “artista” artista baiano, “apenas Um latino-americano Que não tem cheiro Nem sabor”…
    . . . … Não se enganem : o cara era MESMO reaça, e dos piores. Talvez até dedo-duro, também, muito possivelmente. Tão ruim quanto Nélson Rodrigues, outro que a esquerda/progressistas vivem imerecidamente incensando, indevidamente, pois que reacionários, conservadores, retrógrados.

    1. Está se referindo ao Raul? Pois ele ficou anos exilado, fugindo da ditadura. E sempre foram parceiros musicais.

  11. Momento ideal para refletir sobre as críticas aleatórias imputadas ao “politicamente correto” q se tornou na vdd arma letal nas mãos da direita para culpabilizar e dominar as mentes sempre colonizadas da esquerda pelos valores de direita. Equação óbvia para quem é atento e se responsabiliza. Canal youtube “meteoro” é muito bom:
    https://youtu.be/GnFqdvYr54Q

  12. Eu quero saber quem denunciou. Porque sei agora mesmo quem me denunciaria – pessoas próximas, até da minha própria família.
    E assim seguem incólumes não só os que torturaram, mas os denunciantes da sociedade civil que deram força para os psicopatas que emergiram na ditadura, turbinados pelas aulas de tortura que os gringos vieram dar aqui. Gente boazinha, que batia no peito na igreja, gente de bem, de família, que denunciava um vizinho por simples desafeto, denunciava uma boa escola pública porque era preferida às escolas particulares da região (como aconteceu com a minha escola odiada pelo lobby das particulares), gente que denunciava uma professora de colégio público como a minha mãe que não tinha envolvimento algum com política. E assim será de novo, porque não queremos saber quem nos denunciou e quem nos denunciará.

  13. Esses espasmos de lembranças daquela época terrivel é até bom para que nunca esqueçamos dessa ferida. Lamentavel que a provocação parta do homem que comanda a nação e que deveria estar trabalhando pela democracia, pela conciliação. Mas ele não sabe como fazer isso…Aliás acho que nem sabe o que é isso…

  14. PQP ! Nem aprecio o que Paulo Coelho escreve (nada contra quem aprecia) mas amo esse cara. E agora, sabendo pelo que passou, não sabia, o mais profundo respeito e gratidão pela sua posição. Rico, morando em país de 1o. mundo, poderia se esquecer de Pindorama e ser o Isentão. Mas está ligadíssimo e participativo, mais até que muitos “de esquerda”.

    1. O Paulo Coelho mora na Suiça. Nas montanhas! Poucos sabem que a maioria das músicas do Raul Seixas eram feitas em parceria com ele.

      1. Pois é, Luis, minha reverência a ele é muito mais por essa parceria do que pela cadeira 21 da Academia, que ele sem a qual, seria tal qual.

  15. Vão primeiro pelos esquerdistas, depois pelos indiferentes. No fim até “Sociedade Alternativa” é utopia subversiva.

  16. Mas “amigão” Paulo Coelho, você apoiou o golpe contra a Dilma, foi critico ferrenho do Lula e do PT… você contribuiu para que este traste chegasse ao poder.

  17. Nunca será de mais repetir. O mais triste é perceber que o canalha imbecil que assumiu (será) a Presidência reflete o caráter atual de uma parte significativa da nossa sociedade. E isto é desalentador, né não?

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