Prender mais e aumentar penas não são só falsa solução, são suicídio

Poupo o leitor de sofrer com o texto de Raul Jungmann, ex-ministro da Segurança Pública, publicado agora há pouco na Folha, resumindo os dados e uma afirmação que dele se aproveitam.

Os dados: temos 720 mil presos, mais que o dobro das vagas disponíveis em presídios e nada menos que meio milhão de mandados de prisão a cumprir, mesmo com uma taxa de encarceramento que cresce 8,3% ao ano. 75% dos presos têm entre 18 e 29 anos, 12% estudam e 15% trabalham nas penitenciárias e cadeias em geral.

A afirmação, vinda de quem vem:”os governos estaduais responsáveis pelo sistema [prisional], para evitar explosões e crises, fazem um pacto não escrito com o crime, entregando, na prática, as unidades prisionais às facções [criminosas].

É o “tá tudo dominado” que manda e mais mandará nas nossas cadeias.

As “soluções” que há 30 anos se oferecem  este quadro dantesco eram um paradoxo: prender mais e agravar as penas.

Agora, serão outros: aumentar o número de armas em circulação, aumentando também o grau de letalidade da ação criminosa, antecipar o encarceramento com a prisão antes de esgotados os recursos  e endurecer o regime de progressão penal e, portanto, aumentar o tempo de permanência dos apenados nos presídios.

É algo tão evidente que até Raul Jungmann consegue perceber.

A demagogia, porém, sempre opta pela insana, mas lucrativa, falsa estratégia de combater o crime pela presença ostensiva e disseminada da repressão policial (e, cada vez mais frequentemente, militar), acentuando a formação de exércitos do crime fora dos presídios.

A lucidez, neste campo, encontra-se há muito tempo bloqueada pela irracionalidade a que todos são obrigados pela mídia e seu discurso de que qualquer outra política é “defender vagabundo”.

Passamos, nos governos de Brizola, por esta amarga experiência. Mas fechamos um presídio sombrio e medieval – o da Ilha Grande – enquanto 30 anos depois um energúmeno como este tal Witzel sugere abrir “uma Guantánamo”.

Em pouco tempo veremos que os números espantosos que Jungmann cita serão um paraíso perto dos que virão.

Como depois daquele “vou acabar com a violência em seis meses” de Moreira Franco nos vimos enfiados no pior dos pântanos no Rio de Janeiro.

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14 respostas

  1. É duro ,difícil de aceitar ,mas ,nós como sociedade,só recuamos.
    Enquanto maciçamente continuarmos a ser adoutrinados pelos dapena,rezende (um imbecil fdp a menos).e lixos midiáticos pró-violência e PRINCIPALMENTE,sem exercermos a nossa maior virtude como espécie,—-a capacidade cognitiva—,soluções burras para problemas complexos como a proposta desse primata witzel(ele é só consequência da insanidade mental da nossa sociedade) acontecerão.

  2. A verdadeira redemocratização só existirá com a explosão de TUDO que aí está em termos de comunicação. Não adianta nem regulação nenhuma, é bobagem que os poderosos contornam. Tem que fazer uma revolução midiática, não sei como, mas é o único caminho.
    Há três décadas a manada estúpida elegeu Moreira, jogando no lixo o maior programa educacional de nossa história, porque a GLOBO fez a lavagem cerebral de sempre. A tragédia cresceu mas os zumbis continuaram a culpar quem construiu os CIEPS e não quem destruiu. E agora chegamos ao auge da imbecilidade com a eleição de um débil mental. Tudo sob o comando da mídia.

    1. Comentário correto, porém com uma resposta improvável. Não consigo imaginar meios de acontecer tal mudança de paradigma social no Brasil de hoje, pois o que vemos é o que interessa aos donos do poder. Qualquer coisa que mude isto, temo dizer, será para pior. Logo teremos a adoção de métodos para estreitar o acesso à informação divergente e identificar seus autores, e isto será recebido com loas em praça pública pela multidão que começa a engrossar a gritaria “tem que bater, tem que matar”. Chico foi profético de novo, bem como Luis Felipe Miguel em seu artigo “A Reemergência da Direita Brasileira” foi preciso, ao escrever que “a demolição da noção de solidariedade social (…) foi o grande trabalho ideológico da direita nos últimos tempos.” Não vejo mais caminho para reversão deste trabalho em um tempo próximo, mas é fácil ver que a violência necessária à implantação do neoliberalismo financeiro está à porta. O que virá não será agradável de ser visto, nem vai passar na TV.

  3. logo teremos a maioria da população encarcerada sem julgamento, já que o judiciário está mais preocupado com seus aixilios do que em trabalhar

    no Netflix tem um documentário chamado A 13° emenda – recomendo muito assistir,
    Brasil já virou um novo EUA

  4. Primeiro se incita a violência fazendo sinaizinhos engraçados , depois se libera a arma (para quem tem condições econômicas acima da média) e finalmente coloca nas mãos das empresas privadas e finalmente estaremos igualzinho aos EUA e viva a democracia.

  5. Agora, como queriam os bolsomínions, ficaremos mais próximos dos EUA pois foi dada a senha para os tiroteios que tantas vítimas têm produzido entre os estadunidenses.

  6. A “solução” será a privatização dos presídios.
    Tudo está sendo encaminhado para o blá, blá, blá das Parcerias Público Privadas.
    Presídio privatizado precisa de clientes. Por isso estão preparando as prisões rápidas, a redução da maioridade, a liberação de armas etc. Tudo para atrair os “investidores”.
    Muito dinheio irá rolar. Mais uma fonte de financiamento dos “políticos representantes dos cidadãos de bem”.
    A nós, mais uma vez, restará contribuir com impostos e tributos.
    Se reclamar, vai preso. A acusação: Esquerdopata defensor de bandidos.

    1. Marcos, eu pensei desse mesmo jeito. Um grande negócio. Eu li que o Doria vai privatizar 7 presídios.

  7. Salve-se quem puder…O caos, está sendo instalado institucionalmente, porque é mais fácil, segundo alguns, dominar assim…Sem aposentadoria, sem emprego, sem perspectivas de crescimento social, só violência, como pano de fundo da dominação…Enquanto estamos presenciando o espetáculo do novo Itamarati, as pretensões exímias desse novo gestor e de seus asseclas irão se tornar legítimos e reais…Infelizmente!!!

  8. Os EUA tem o maior número de presos do mundo, o que significa que só prender não resolve a questão do crime. O Brasil ocupa a 2a. posição e os resultados aqui são os mesmos de lá. Segundo dados do FBI, apenas crimes em que morrem 2 ou mais pessoas são considerados violência urbana. Mortes entre quadrilhas rivais não entram nessa estatística. Em 2018 só 22 assassinatos foram considerados violência (os franco atiradores deles). Não é uma gracinha? Se arma evita assassinatos, por que os EUA tiveram, em 2016, 37.200 mortes contra 43.200 do Brasil? Algum “especialista” pode explicar isso?

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