Quando a omissão é suicídio

Ontem, cumpri outra vez uma cena que é recorrente, quase obrigatória, em minha vida: ir votar acompanhado de um filho.

Verdade que, ao longo de mais de 30 anos, ao menos, como são três, eles puderam se livrar da tarefa quando a idade já os fazia votar sozinhos.

Sempre considerei, porém, um gesto com alto significado, pois não há o que a eles eu possa deixar de mais importante que o execício de suas vontades, de seus direitos e, também, do seu dever para com o mundo em que viverão por mais tempo que eu.

O “da vez”, mais novo, já preocupado com o semblante sombrio do pai, começou a perguntar sobre o que acontecia com quem não queria votar em ninguém.

“Vota nulo ou branco”, respondi.

“Ah, então o voto dele não conta”, concluiu ele, bem direitinho na regra da Justiça Eleitoral.

“Conta, sim”, devolvi, para sua surpresa: “conta para fazer mais forte o vencedor, porque isso é o resultado da omissão”.

“Mas o que é omissão?”

“Omissão, meu filho, é o mesmo que covardia, que é quando você deixa de fazer o que sabe que é certo porque não quer se meter com aquilo”

“Mas e se não foi comigo?”.

Sei que não é simples explicar que tudo o que há no mundo, como nos ensina o Efeito Borboleta de Edward Lorenz (lembra da cena dos pombos andando aleatoriamente diante de John Nash, no filme Uma mente brilhante?).

Apelei, então, para os poetas, como me ensinou um dia o velho Leonel Brizola e lembrei do clérigo inglês John Donne em suas Meditações, do século 17. “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída” e dá-se o mesmo entre os seres humanos, porque “a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano”.

Para quem não a conhece, é a reflexão que se encerra com o famoso “não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por você”.

“Sempre é com você, meu filho, quando é com todos”.

Num destes processo maravilhosos de fuga que só as crianças são capazes de desenvolver, minutos depois ele me diz que quer ser cientista e construir “uma máquina do tempo”.

“Será que eu vou conseguir, pai?”

“Pode ser meu filho, mas não adianta nada, porque o tempo será sempre aquele em que você está vivendo”.

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