Sem rodar a manivela, ficamos na escuridão

A reportagem na Folha, mostrando que nunca antes na história deste país uma crise econômica levou tanto tempo sem dar sinais de reversão nos investimentos e, portanto, na retomada de algum crescimento – ainda que quase sempre abaixo de nossas potencialidades – lembra a experiência de quem já teve de ligar um destes antigos geradores a óleo diesel, comumente usados como geradores de energia elétrica no interior do Brasil, até décadas atrás.

Para quem não conhece um deles, conto. Há neles um pesado disco de ferro fundido, no qual existe uma manivela. Chama-se volante, mas não serve para dirigir nada, até porque o motor é estacionário e não vai a lugar algum, mas é o que o “desinfeliz” a quem cabe ligá-lo deve fazer girar, com força e teimosia, para que a máquina “pegue”, resfolegando e insegura, até que se estabilize naquele tu-tu-tu que atravessa a noite , agora iluminada.

Já se vê, portanto, que neste texto não se trata de análises econômicas destas de doutores empolados, mas da bruta prática de por a funcionar uma máquina sem a qual estamos fadados à escuridão do desemprego, da marginalização e da destruição de todas ou quase todas as nossas estruturas produtivas e sociais.

Trata da única coisa que fez a economia brasileira crescer nos séculos 20 e 21: o Estado empregar a sua força em fazer rodar a manivela e por a máquina em marcha.

Os neoliberais – e faz tempo – acham que ela vai funcionar sem isso, que basta aquecer o clima pelas trocas financeiras de natureza especulativa e injetar “combustível” na máquina através das privatizações.

Não vai.

A injeção de combustível só se pode dar pela via do emprego, trabalho, renda e consumo, numa economia que tem um quarto de suas estruturas produtivas paradas, prontas a funcionar com investimento quase zero e que tem uma situação admirável, pelo seu potencial de exportação de primários, de casar esta atividade com a expansão de seu parque fabril e de sua infraestrutura.

O que estamos fazendo, porém, é destruir o velho motor, leiloando suas peças e retirando a manivela que pode nos tirar da escuridão.

Estamos trocando a crise cíclica do capitalismo pelo processo permanente de aviltamento das colônias.

O que acontece no Brasil não é um simples crise econômica, é nossa renúncia a sermos um país.

Rodar a manivela, agora, é um pecado imperdoável.

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