“Tribunal de Guerra”, o ato falho de Paulo Guedes

Psicólogos e psiquiatras podem corrigir-me, mas as declarações dadas a O Globo por Paulo Guedes – que anda em plena temporada sincericida – de que a CPI da Covid-19 vir antes do fim da pandemia do novo coronavírus equivale a um “tribunal de guerra feito durante a guerra” são a admissão de que há crimes de guerra cometidos durante o combate à doença que já abriu caminho a chegarmos ao meio milhão de mortos no Brasil na primeira quinzena de junho.

É quase uma confissão de que se cometeram crimes que levaram à ampliação violenta dos efeitos mortais da pandemia, em nome do “funcionamento da economia”, sem as precauções que, em quase todo o planeta, foram tomadas para impedir sua disseminação. Em qualquer métrica que se tome, os efeitos mortais da Covid no Brasil foram muito maiores do que se registrou na maioria dos países e, entre os países com população maior do que 15 milhões, só ficamos – e pouco – com mortalidade inferior à do desastre italiano na relação entre mortos por habitante.

De alguma forma, porém, Guedes têm razão: haverá um tribunal para os crimes esta guerra perdida e ele acontecer, como acontecem os tribunais de guerra, quando caírem os comandantes deste desastre.

Pode-se argumentar que outros tiranetes caíram sem que fossem chamados a responder por suas atrocidades, mas recordemos que estes, mais inteligentes que os de hoje, cuidaram de moderar-se por anos e produzir uma “distensão lenta, gradual e segura”, enquanto os de hoje – o presidente da República e seus associados – querem levar o país ao paroxismo ao caos e ao conflito para prosseguirem no poder.

Oferecem, sem o menor pudor, a escravização dos miseráveis. Ontem, Bolsonaro defendeu a impunidade ao trabalho escravo rural; hoje, seu ministro alardeia o mesmo plano, com um “Bolsa-Escravo” para os jovens: R$ 200 para que trabalhem, com a “oportunidade” de “ter que bater ponto e ser treinado para ser servente de pedreiro, mecânico”.

— Da mesma forma que você dá R$ 200 para uma pessoa que está inabilitada para receber o Bolsa Família, por que não pode dar R$ 200 ou R$ 300 para um jovem nem-nem? Ele nem é estudante nem tem emprego. É um dos invisíveis. Por que eu não posso dar R$ 200 ou R$ 300? Estou pagando para uma empresa treiná-lo. Eu vou dar R$ 300 — explicou o ministro.

R$ 200! R$ 6,67 por dia!

Nem um escravo, seu Guedes, nem um escravo é tão “barato” assim.

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