Unidade não pode ser ‘golpe de esperteza’

Muito cedo comecei a ouvir a história de que “a oposição precisa ser unir” e muitas vezes concordei com isso, ainda que raramente tenha visto esta união ser praticada.

Em 1982, condenava-se Brizola (repetia-se a história, como agora, que a “culpa” por 1964 tinha sido dele e de outros da esquerda) por não estar disposto a encarnar o tal “arco da sociedade”, como se chamava então a justificativa para apoiar Miro Teixeira, cria eleitoral de Chagas Freitas, governador do Rio de Janeiro, contra a lacerdista Sandra Cavalcanti, heroína dos microfones da Rádio Globo, então uma potência.

Brizola recusou o que chamou de “geleia geral” e saiu vitorioso,

Vi o contrário, em 1989, quando a união -embora apenas no segundo turno – entre Brizola e o PT fluiu, apesar de todas as rusgas e “trancaços” entre o velho líder gaúcho e Lula, resultando numa espetacular transferência de votos brizolistas para o petista, porque isso era politicamente natural, apesar das mágoas dos pedetistas por terem “tirado” de seu líder a oportunidade de um embate com Collor.

Havia ali um fato eleitoral, que segue até hoje, que é o de termos passado a ter um segundo turno eleitoral, que torna obrigatória a definição de a quem as forças políticas vão se reunir, formal ou informalmente.

Hoje, ninguém tem dúvidas do que significaria apoiar Jair Bolsonaro num eventual segundo turno ou fazê-lo disfarçando-se em um “nem isto, nem aquilo” ou em confortável exílio político.

Há candidatos e pretensos candidatos. É legítimo, mais ainda há um ano das eleições, antes ainda do processo político afunilar-se nas obrigações da disputa eleitoral. Forças muito diferentes e frequentemente opostas, como o PSDB e, sobretudo, o PSDB de Doria, antípoda da esquerda e, francamente, personagem de uma direita que provocou sua autodestruição, sem perspectivas com ele sequer em São Paulo.

Este discurso – recorrente entre os comentaristas políticos da mídia – de que “é preciso unir a oposição” não é uma atitude sincera. Quem é que pode imaginar, por exemplo, que o eleitorado da direita paulista, órfão de Bolsonaro e ainda rescendendo a “Bolsodoria”, vá decidir-se por Lula se e quando o governador paulista for reduzido à sua atual dimensão eleitoral? E Ciro, engolirá a arrogância agressiva de seu discurso – reafirmado ainda no domingo com sua declaração de que “minha missão é tirar o Lula” – para apoiar o petista?

Alianças políticas não se constroem pelas bases, mas pelo entendimento de lideranças, é verdade. Mas importa, e muito, o sentimento, a percepção e a disposição das massas populares, sem os quais não passam de arranjos políticos, que se explicam em níveis regionais, mas não em nacional, quando se trata de decidir o essencial: o rumo do Brasil.

A maior prova disso é a atitude madura de um jovem partido, o Psol, que naturalmente caminhou para uma aliança previsível com o PT, embora tenha no passado recente resultados eleitorais mais que expressivos, que não lhe retirariam o direito a ter pretensões de candidatura própria e pensar em um projeto meramente partidário.

No campo inverso, quem quer uma aliança usa o discurso de que “é preciso impedir a voltado Lula” e infla bonecos ofensivos, igualando-o a Bolsonaro? A insinceridade é evidente, exposta, patente.

Sinceras, mesmo, são as faixas de “Volta, Temer” mandadas exibir nos atos de domingo. Elas são, mais que qualquer outra evidência, a comprovação de que não se quer mais do que uma recomposição do pacto das elites.

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