Universidade não é banca de camelô

O projeto de financiamento privado das universidades federais, anunciado com pompa hoje pelo cidadão que responde pelo Ministério da Educação é uma deformação completa do que são os mecanismos que fazem a supostamente ideal fórmula norte-americana para ampliar a pesquisa e desenvolvimento.

Primeiro, é uma mentira grosseira que sejam as empresas quem financiem a maior parte das pesquisas por lá. Longe disso.

Segundo as estatísticas oficiais do, notem bem, governo Donald Trump, dos US$ 75,3 bilhões investidos em Pesquisa (Research, para eles) e Desenvolvimento nas principais unidades de ensino superior – as que tiveram gastos no setor acima de US$ 1 milhão, que representam 99,8% do gasto – US$ 40,3 bilhões vieram do Governo Federal, US$ 4,25 bi de governos estaduais e municipais e quase US$ 19 bilhões de fundos próprios das instituições (o que inclui mensalidades, taxas, doações recebidas e outras receitas).

Isso dá nada menos que 84% do financiamento de pesquisa e desenvolvimento total no ano fiscal de 2017 – que foi até setembro passado. E já foi mais, porque o pai do amigo do pai “dele” vem cortando estes fundos.

As empresas participaram com US$ 4,43 bi e instituições sem fins lucrativos com US$ 5,13 bilhões.

Muita gente pensa que é diferente, porque de notícias o que temos são, volta e meia, milionários doando recursos expressivos a uma ou outra instituição universitária. Muito bom, mas isso só faz cócegas.

Ainda que imaginássemos que os capitalistas industriais brasileiros (sobrou algum?) se convertessem ao padrão americano, isso representaria valores pífios para um país que, de fato, que ser produtor de conhecimento e tecnologia.

A “genial” ideia de aplicar uma “Lei Rouanet” no financiamento universitário fica entre a bobagem e a picaretagem. Explico: os recursos aplicados via Lei Rouanet são deduzidos dos impostos que as empresas têm de pagar aos governos e, portanto, é dinheiro que é, essencialmente, público ou está em vias de ser, caso seja recolhido como imposto.

Mas, é claro, vai nascer uma camada espetacular de “captadores”, espertos que farão a conexão entre universidade e empresa, por uma boa comissão, é claro, a ser embolsada.

Por último, apostar que a montagem de “startups” possa ser o caminho do desenvolvimento científico e tecnológico é uma bobagem sem tamanho.

Claro que a formação de novas empresas é importante e a as universidades brasileiras criaram incubadoras de iniciativas inovadoras desde os anos 70 para 80. Mas elas desenvolvem aplicações de conhecimento, não – em geral – conhecimento puro, que sirva de fundamento às aplicações de ponta.

Na estatística dos EUA, dois terços dos recursos federais vai para a pesquisa básica e só um para a aplicada e para o desenvolvimento experimental.

As ‘startups’ por sua própria natureza, têm uma alta taxa de mortalidade (um quarto delas fecha com menos de um ano e metade fecha com menos de 4, segundo a Fundação Dom Cabral, em pesquisa realizada antes da crise econômica.

Além do mais, uma universidade não é uma banca de camelô, não é lugar para quem vai, como alguns notórios, atrás de “palestras que já renderam “400 k”.

Ela é a afirmação simultânea de indivíduo e povo, de carreira e nação.

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17 respostas

  1. Não tenho a menor dúvida que esse esquema vai ser muito mais vantajoso para os empresários que para as universidades.

  2. A universidade forma não somente profissionais qualificados, mas cidadãos aptos a viver na democracia.

  3. A proposta apresentada é rasa, sem fundamento e sem noção. Falar que as universidades que aderirem precisam contratar OS para gerir o programa e dar palpites na gestão universitária é outra asneira. Quem forma os profissionais que estão nos setores público e privado, se não as universidades públicas?

  4. Se a comunidade universitária conseguir que a posse física dos campi e dos prédios continuem com as universidades, que eles não sejam alienados para outros fins, já se teria conseguido um razoável ponto de partida para uma futura recuperação das universidades, dentro de um plano mais abrangente de reconstrução nacional.

  5. Universidade, na acepçao da palavra, é cara no mundo inteiro e tem sempre q receber a maior parte do financiamento do Estado. A menos q queiram transforma-la em colegiões ou simplesmente em mão de obra barata voltada pra interesses privados imediatistas.

  6. A verdade é que, lamentavelmente, muita gente do setor da educação votou no capitão e agora o país está pagando o pato e eles também.

    1. Aqui na Ufes (Vitória-ES) 90% dos professores das engenharias votaram no Bolsonaro, tinha até um da Eng. Civil fazendo campanha para ele dentro da sala de aula 1 ano antes das eleições (é mole!!). No curso de Economia foi por volta de 80%. A universidade federal pode acabar que esse pessoal não se arrepende não, afinal será culpa do PT, mesmo que o projeto de destruição total seja do atual governo.

    2. É pior, Sandra: Já tem muita gente nas universidades e IFs pensando nas possibilidades de lucro (para si próprios) com esse novo sistema, através de “consultorias” e “start-ups”.

    3. Trabalhei na EDUCAÇÃO durante 10 anos e posso afirmar, votaram em peso no Bolsonaro, alegando que o PT roubou demais e que o BRASIL precisava de mudança.NUNCA vi algo parecido, a sociedade do BRASIL está numa convulsão e a febre pelo jeito não quer abaixar é tesno.

  7. Se a comunidade universitária conseguir que a posse física dos campi e dos prédios continuem com as universidades, que eles não sejam alienados para outros fins, já se teria firmado um razoável ponto de partida para uma futura recuperação das universidades, dentro de um plano mais abrangente de reconstrução nacional. Reconstrução Nacional: Esta deverá ser a palavra de ordem dominante, desde já, em todo o país. Futura reconstrução nacional. Só imbecis poderiam imaginar que poderiam tornar um gigante como o Brasil, com uma longa e fecunda tradição industrial, em um reles produtor de comida, de matéria prima sem valor agregado. Vamos todos nos preparar para a Reconstrução Nacional, inclusive com a formulação detalhada de planos para sua implementação. Por mais que os destrutores pensem que fazem coisas definitivas, eles não conseguirão fazer nada de definitivo. Tudo o que eles fizerem será levado pelo tsunami do mais completo fracasso econômico da História Universal.

    É preciso ter fé, ter infinita confiança na capacidade regenerativa da inteligência nacional. Quem são eles? Fanatícos idiotizados? Corretores ávidos supostamente ancorados em teorias ultrapassadas de economia? Seguidores teleguiados de sites americanos de extrema direita? Eles não são nada e a inteligência brasileira é tudo de bom que a Humanidade produziu.

  8. “Por último, apostar que a montagem de “startups” possa ser o caminho do desenvolvimento científico e tecnológico é uma bobagem sem tamanho.”
    Realmente. Uma Start-up, principalmente composta por jovens afoitos e recém-formados, é criada com a intenção de gerar lucro rápido, e não necessariamente com inovação. Vai chover “brigadeireteria gourmet” e empresas de desenvolvimentos de sites para web, mas nenhuma startup vai investir em pesquisas como a cura do câncer ou vacina contra HIV ou nanotecnologia para revestimento de turbinas de jatos, que demoram 10, 20 anos de pesquisas para – talvez – dar algum resultado concreto em desenvolvimento científico.

  9. Um empresario aqui da minha região dono de varias universidades privadas já cantou a pedra da privatização. Ele sabe o que faz e fala.A coisa é tenebrosa.

  10. A função básica da universidade é o ensino e a formação de profissionais destinados às necessidades da sociedade, inclusive o nível mais alto que é a pesquisa. A interferência “financiadora” de empresas contamina e colapsa a correta metodologia que se deve ensinar para os que aprendem a pesquisar no mestrado, doutorado ou pós-doutorado. Nenhuma empresa daria dinheiro (mesmo descontando do ir) sem querer interferir naquilo que não entendem ou têm competência, porque elas têm pressa para obter resultados e aumentar os seus lucros. Os objetivos e resultados de pesquisas financiadas por empresas têm objetivos muito particulares que constituem o exato oposto da formação ideal do procedimento e conhecimento de um pesquisador. As empresas podem montar os seus próprios laboratórios de pesquisas e se comprometer a contratar os pesquisadores formados pelas universidades porque poderão ter assim, profissionais de nível mais elevado.

  11. Tomara que eu esteja errado, mas o que o atual presidente da UNE estava fazendo lá? Me parece que já cooptaram o cara.

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