Vacina russa tem segredos, para o bem e para o mal

O registro da vacina anticoronavírus concedido oficialmente hoje pela Russia ao imunizante desenvolvido pelo Instituto Gamaleya está sendo visto com ceticismo no mundo ocidental.

Certamente há motivos para isso, pela falta de publicações científicas abertas sobre seu desenvolvimento e pelo apressamento dos testes em massa, característicos da “Fase 3” em que estão pelo menos seis outras vacinas.

E há, claro, a visão de que Vladimir Putin estaria, com isso, fazendo uma “jogada” publicitária para reforçar seu carisma como líder do povo russo.

Tudo pode ser verdade, mas a razão manda observar com atenção os resultados da vacina para verificar se não há, de fato, uma conquista científica de Moscou.

Para começar, da mesma forma que se pode pensar que Putin deseja se fortalecer, também é preciso pensar que, dono de um sólido patrimônio político, ele iria arriscá-lo em algo no qual pouca ou nenhuma confiança científica merecesse.

Depois, a ciência russa é muito desenvolvida e já era assim desde antes da revolução bolchevique e da criação da União Soviética. A Academia de Ciência Russa – durante o regime Academia de Ciências da União Soviética – tem quase 300 anos, fundada por Pedro, o Grande, em São Petersburgo e, a seguir, gozou de grande prestígio no reinado de Catarina.

Durante o século 20, nem é preciso dizer a ciência recebeu de apoio do regime da URSS e professores e pesquisadores só ficaram sem suporte nos anos iniciais do desmonte soviético, quando muitas universidades do mundo – inclusive no Brasil, para onde Darcy Ribeiro trouxe 17 deles, num projeto criminosamente desmontado na Universidade do Norte Fluminense – os disputaram.

Com tudo isso, é bom não desfazer da capacidade tecnológica dos russos – vejam, por exemplo, que seu programa espacial segue, mesmo aos trancos e barrancos – e considerar que tiveram décadas de pesquisas bacteriológicas e virais que, por conta da Guerra Fria, eram desenvolvidas de forma isolada e secreta.

Segredo sempre foi, por isso, uma das características da ciência naquele país. Ao batizarem a vacina de Sputnik V é possível que queiram tornar simbólica justamente a segurança, porque foi esta nave, lançada em 1960, a primeira a enviar e resgatar sem danos seres vivos ao espaço: os cachorros Belka e Strelka (veja a foto de sua volta à Terra) , além de camundongos e plantas, pois a pioneira Laika morreu durante o voo do Sputnik II.

A vida humana não tem nacionalidade, é um valor absoluto. Portanto, olhar sem preconceito o resultado da vacina russa é um dever de todos, mesmo que possa a muitos parecer impossível que seja eficaz e segura.

Saber-se pouco sobre ela não é o mesmo que recusar sua validade por razões “ideológicas” e deveríamos estar designando missões científicas para observar e, eventualmente, validar o imunizante.

É uma surpresa, deve ser tratada como uma simples mentira propagandística? Não.

Diziam o mesmo de levar e trazer seres vivos ao espaço, mas Belka e Strelka abriram a porta para que Yuri Gagarin fosse o primeiro homem a ir ao espaço, nos dizer que a Terra é azul.

E não é plana…

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email