Hora do voto

Os que acompanham o blog sabem que não o utilizo para fazer campanhas para candidatos ao Legislativo e, nas eleições majoritárias, fixo-me nas que têm significado político.

Acho, por isso, que devo ser sincero sobre as opções que, daqui a três dias, farei pessoalmente, com o direito de voto para prefeito de minha cidade, o Rio de Janeiro, que só pude exercer aos 27 anos, por conta da ditadura e seus prefeitos biônicos.

35 anos depois, não exercerei este direito sem lamentar que, por partidarismos excessivos – e sempre defenderei os partidos como ferramentas da democracia -, estejamos muito mais distantes da vitória de uma candidatura do campo popular que estaria desenhada hoje se Marcelo Freixo tivesse correspondido às necessidades da população e do momento político.

Não tenho dúvidas de que estaríamos a ponte de eleger, na segunda maior cidade do país, alguém com o compromisso de humanizar nossas relações, combater a subversão da democracia pela milícia e de levar adiante a superação do clima de medo que impera nos subúrbios e nas comunidades faveladas (ou quase) onde está a maioria do povo carioca.

E isso – ou talvez por isso – de recuperar a vanguarda cultural, artística e científica do Rio de Janeiro, um patrimônio do Brasil, laboriosamente destruído pela ditadura e pelos “pragmáticos” que a ela se seguiram.

Infelizmente, aceitou não se apresentar ao dever de sê-lo.

Vou, portanto, dar meu voto a alguém com quem não tenho relacionamento pessoal mas em quem reconheço um trajetória de décadas de compromissos com o movimento popular inquestionável: Benedita da Silva.

Por duas razões.

A primeira, é pelo significado político que teria – ou terá – a sua passagem ao segundo turno como confronto contra o autoritarismo, o extremismo de direita, o racismo, a misoginia e todo o tipo de fanatismo retrógrado que é a negação da maravilhosa biodiversidade do Brasil.

A segunda, porque posso confiar em uma trajetória que nunca mudou de direção – por vezes diferente da minha – e que oferece o que é essencial para o eleitor: não trair o sentido do voto que recebe e transformá-lo num instrumento de uma carreira de sucesso.

Por ser um amante da liberdade, votar em quem faz questão de se apresentar como policial seria corroborar com uma distorção terrível de nossos tempos: a de achar que acusação, repressão e prisão são instrumentos da política.

A vereador, darei meu voto Leonel Brizola Neto (PSOL), a quem também conheço há mais de 30 anos, desde que, ainda guri, ajudava seu avô. Tem sido um resistente ao fascismo, não se entregou a conveniências, deixando o PDT – como eu o fiz – para preservar sua coerência política, a qual tem praticado com o enfrentamento sem temores do fascismo dominante.

Um voto e outro não me retiram a capacidade de analisar ou informar o que se passa ou o que parece mais conveniente à expressão da população, que está acima de tudo.

Mas revelá-los – aceitando que há outras visões – é cumprir o dever de lealdade de quem pretende opinar.

 

 

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