A naturalização do absurdo de Bolsonaro, no Jornal Nacional

Ontem, preparando a publicação dos dados do Datafolha, só de “rabo de ouvido” acompanhei as “recortagem” (reportagem feita com recorte de reportagens) do Jornal Nacional.

Mas estranhei o tom e, sobretudo, a fala de William Bonner dizendo que as declarações de bens apresentadas à Justiça Eleitoral era quase que “de brincadeirinha” e que poderiam ser diferentes das entregues à Receita Federal.

Opa! Qualquer estudante de direito sabe que isso é falsa declaração, artigo 299 do Código Penal:

Omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante.
Pena – reclusão, de um a cinco anos, e multa, se o documento é público, e reclusão de um a três anos, e multa, se o documento é particular.

Estava evidente que do limão azedo dos fatos, a Globo fez a mais doce limonada possível para Bolsonaro.

Mas como, logo a seguir, veio o arreganho autoritário de Luiz Fux e, sendo um só, é “muito socó prum socó só coçar”, socorro-me do amigo, e professor de história da Universidade Federal de Juiz de Fora, Ignacio Godinho Delgado, que ouviu tudo com atenção e o “pé atrás” que se deve ter sempre com a Globo:

A maneira como o JN abordou a reportagem da Veja sobre o processo de separação do fascista e a denúncia de O Globo relativa à ausência de dois imóveis na declaração de bens feita por ele ao TSE foi, malandramente, bem favorável ao candidato do PSL.
Ao fim e ao cabo, fica tudo como “briga de marido e mulher”, coisa do “momento”. No final, como ele é dedicado…Já os tais imóveis deveriam ter sido declarados, mas, informa, a Globo, a Justiça Eleitoral não faz julgamento sobre isso… Como se fosse um pequeno lapso.
Seguiu-se matéria sobre Adélio Bispo de Oliveira, relatando que a PF disse ter agido sozinho, mas deixando no ar outra possibilidade, com os inquéritos ainda em andamento. Devem servir para um momento posterior do processo eleitoral…
O fascista conseguiu muito espaço na TV, com a entrevista a José Luiz Datena na Band e a divulgação, na voz de William Bonner, em rede nacional, de seus tuítes denunciando a “parcialidade” da mídia. Nada sobre as lambanças do vice, a horrenda defesa da tortura pelo filho, o “piti” da Janaína, os atos previstos para este sábado…
A Globo, de forma sutil, vai se ajustando ao fracasso das candidaturas “convencionais”, fingindo que faz jornalismo.
A propaganda de Alckmin não produziu, até agora, resultado visível para a ideia de uma “terceira via” contra a “polarização” (no Datafolha Alckmin oscilou na margem de erro e Ciro caiu). Algo mudará nos próximos dias?
Não creio. O JN de hoje e a entrevista de Datena deram uma tremenda força pro fascista.

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