A segunda vala

Quando se fala em pandemia, o drama conhecido de todos é a “segunda onda”, inevitável e mortal, que arrasta, no mundo inteiro e todos os dias, milhares de pessoas à morte.

Quando se fala em economia, porém, o “mercado” segue negacionista, comportando-se como se a pandemia fosse coisa do passado e que o futuro à frente é só o de crescimento.

É a tal recuperação “em V” de que tanto fala Paulo Guedes.

Ela, entretanto, está em algum lugar entre o improvável e o impossível.

Os indicadores econômicos do final do ano, por diversas razões, já se mostram ruins e devem piorar com a degradação – já evidente – das condições sanitárias em todo o planeta. E aqui, embora, outra vez, com retardo em relação, pela ordem, à Europa e aos Estados Unidos.

Mesmo por lá, a vacinação – iniciada timidamente – levará meses para alcançar uma escala capaz de representar algum grau de segurança para a livre circulação de pessoas.

Aqui, na condição de “sem-vacinas”, levará muito mais e não se poderá pensar em uma imunidade significativa ao longo, pelo menos, de todo o 1° semestre.

Por falta de vacinas a tempo e, pior, pelo verdadeiro “terrorismo antivacina” protagonizado por Jair Bolsonaro.

Por mais que haja um estado de irresponsabilidade coletiva, a nova explosão de casos e mortes vai implicar num final de 2020 e início de 2021 extremamente avaros no “PIB de Verão” – turismo, lazer, serviços às famílias, etc – e a alta persistente da inflação, pressionando juros e dívida pública para cima e o consumo para baixo.

Teremos uma “segunda vala” econômica, que talvez não seja tão profunda quando à primeira porque parece ter se acentuado significativamente a “ciência” presidencial do “e daí”, mas diante da qual não temos as bóias que representaram os auxílios emergenciais e a ampliação do crédito subsidiado às empresas.

Porque, diz hoje na Folha o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, ” não há espaço fiscal para prolongar os gastos públicos” e que que vacinar a população é mais barato que prorrogar os programas emergenciais do governo de enfrentamento à pandemia da Covid-19″.

De fato, é. Principalmente vacinar sem vacinas e, se possível, deixando a metade sem se vacinar, por medo.

 

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