Gonzalo Vecina: vamos capitular à morte?

Por vezes preocupo-me, pela minha insistência em apontar, de maneira quase panfletária, a gravidade da pandemia da Covid-19, desde quando era, ainda, uma longínqua ameaça, à qual olhavam com desdém e diziam que “a dengue mata mais”.

Infelizmente, desde janeiro, isso tem se mostrado não apenas correto mas, ainda assim, pouco diante das ameaças que vivemos.

Hoje, nos jornais, há dois alertas da maior seriedade sobre o que está acontecendo e sobre a criminosa insuficiência que se tem não só nas restrições de circulação de pessoas como na atitude estúpida de restringir as fontes de fornecimento de vacinas para o Brasil a um ou dois fornecedores.

Um, é a entrevista do cirurgião Sidney Klajner, presidente do Hospital Albert Einstein, em O Globo, alertando para a necessidade de endurecer as medidas de controle sanitário porque, se tido correr como nos planos do Governo, ainda há quatro meses antes do início de uma vacinação em escala considerável.

Outro, mais grave, é o do sanitarista Gonzalo Vecina, ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância, publicado no Estadão, um vigoroso libelo contra a omissão das autoridades públicas em dar ao combate à pandemia a importância que ele exige, em nome de vidas humanas.

Propor vacinação só em março e alcançar
no máximo 1/3 da população em 2021 é um crime

Gonzalo Vecina Neto, no Estadão

Nessas idas e vindas da pandemia, às vezes parece que se está em Macondo. Onde estão as ondas? Onde estão os governantes? Onde está a população? E as vacinas? E os mortos? Sim, infelizmente os mortos estão mortos e enterrados. E nem foram adequadamente chorados. É proibido chorá-los. Pode haver disseminação da doença. Do vírus. Desses seres invisíveis que vieram para aumentar o número de mortos. Que ninguém sabe explicar como surgiram e quando vão embora. Mas sabemos que estamos cansados deles e parece que depois da terceira onda eles irão embora e, por isso, queremos sair logo da primeira e viver a segunda, para que chegue a terceira e tudo acabe e Macondo possa voltar à sua…normalidade?

Tempos de realismo fantástico. Estamos vivendo uma pandemia provocada por um vírus letal que veio da destruição ambiental provocada pelo homem na Ásia. Uma parte das pessoas que se infectam morre. Não há remédios para tratar a doença. Apesar de o Secretário de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde ter declarado que deve ser iniciado o tratamento o mais precocemente possível. Com os medicamentos que todos sabemos quais são. E que está “CIENTIFICAMENTE” comprovado que o isolamento social não funciona. Faltou declarar que, de acordo com seu chefe, as máscaras devem ser evitadas, pois os vírus gostam de pessoas mascaradas.

Não interessa se é uma nova onda ou não, estamos vivendo um recrudescimento da epidemia. O número de casos está aumentando no País. Hospitais estão ficando cheios e, em algumas cidades, é preciso escolher quem vai viver, quem não será atendido…E por quê? Porque estamos na rua e nos encontramos com o vírus. Porque nossos governantes não querem assumir o papel para o qual foram escolhidos: governar, liderar, propor alternativas. Porque não queriam ter prejuízos eleitorais e não quiseram voltar atrás em flexibilizações irresponsáveis. E um dia após as eleições propuseram o que já deveriam ter feito há quinze dias!

O que está ocorrendo não é surpresa. Não é fruto dos cientistas mal intencionados. A epidemia se alimenta de encontros e enquanto o vírus circular e existir pessoas que não tiveram a doença ou não foram vacinadas, teremos casos e mortes. Os casos e as mortes poderiam ser evitados pela ação dos governantes que estão falhando e, em uma democracia, quando governos falham, devem ser chamados à responsabilidade e cobrados. Isso ainda não ocorreu. A justiça não seguiu seu curso na identificação dos responsáveis pelas mortes e pelo sofrimento.

O plano proposto de vacinação que parte da existência de uma única vacina e da ficção do CovaxFacility [o acordo da OMS que nos daria 40 milhões de doses de vacina] é de um cartorialismo criminoso. Ignorar que somente no País tivemos quatro vacinas em testes e provavelmente exitosas e que deveriam ter merecido um esforço de negociação do governo é inaceitável. Propor que iniciemos a vacinação em março e que no máximo alcancemos um terço da população em 2021 significa não realizar nenhum mínimo esforço de tentar oferecer alternativas à população. É uma pública capitulação. É um crime. Mesmo em Macondo. Cadê as luzes?

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