Memórias do que não houve e as do que é real

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Em seu Estudo sobre a Histeria, escrito antes da virada do século 20, Sigmund Feud escreve que “os histéricos sofrem principalmente de reminiscências”.

A direita brasileira – inclusive aquela que negará seguidamente que o é, nas colunas dos jornais deste país – insiste que o impasse que vivemos agora é fruto da “herança maldita” do Governo petista.

É natural que o façam, porque não tem absolutamente nada de construtivo a propor e seu discurso é de que o progresso virá da destruição:  cortar, fechar, vender e ações deste gênero.

Os males, por sua vez, são reduzidos a desvios individuais: corromper-se, roubar, receber vantagens. Nem mesmo uma palavra sobre as deformações da economia, da renda, sobre a exclusão, a carência, a drenagem colonial de nossas riquezas. A tal ponto que se recomendaria, em lugar de medidas econômicas, leituras morais e religiosas, que teriam o condão de transformar o Brasil a partir de uma espécie de “conversão” particular aos bons costumes.

Vivemos sob o império não apenas de homens primários e mesquinhos – melhor ilustração disso do que Sérgio Moro e Michel Temer? – , mas também de reminiscências do que não houve, mas é apontado como o paraíso onde teríamos fruído do leite e do mel de um passado onírico.

Assim, na ditadura – onde se calava, torturava e matava – éramos felizes e livres; no tempo das privatizações éramos prósperos, apesar de irmos de pires na mão ao FMI, a honestidade imperava apesar de roubarem a todo o vapor…

A mídia e a direita deste país – que são quase a mesma coisa, embora a primeira não tenha a desculpa da ignorância a mitigar-lhe a culpa – vivem desta automistificação  e, assim, nem se pode dizer que seja absurdo que alguns caminhoneiros saúdem como salvadoras as tropas que,  em tese, foram ali para reprimi-los e expulsá-los.

Embora superada na psiquiatria, a terapia de choque acabava sendo usada nestes casos e é dela que se precisa fugir  se desejamos uma volta à normalidade neste país.

Infelizmente, a realidade não convida ao serenamento dos ânimos, que historicamente vem com uma “zeragem” do jogo e a rearrumação dos atores sociais segundo suas capacidade e necessidades.

Quem, afinal, terá coragem de dizer ao povo brasileiro, nestes tempos em que lhe incutem histeria às carradas, que é preciso deixar de lado as lembranças do que não existiu e recorrer às experiências que deram certo?

O povão, menos afeito às elucubrações da classe média e dos falsos intelectuais, recorre a recordar  o que viveu, de fato, e é por isso que o símbolo que as resume está enjaulado em Curitiba e não lhe conseguem tirar da memória.

 

 

 

 

 

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