Morte em cima de todos, dinheiro acima de tudo

O Ministério da Saúde, avisam os jornais, anuncia neste sábado que cinco estados – São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Amazonas e o Distrito Federal – estão entrando na fase de “disseminação descontrolada” da infecção pelo novo coronavírus.

Significa que já não é possível identificar onde está o inimigo: ele está por toda parte.

Bons militares saberiam que, agora, é preciso combater de casa em casa, de rua em rua, em toda a parte e em todo lugar.

O nosso, aqui, mau militar que é, teima em que a vida continue normal, como se fosse normal ver cair morto o pai, a mãe, o vizinho – por enquanto na classe média, basicamente, mas logo por toda a parte – que foi atingido nos pulmões pela bala microscópica do vírus.

Ali está, nos louvados Estados Unidos, o resultado do menosprezo à epidemia, os já 300 mil infectados – confiram daqui a pouco – e mortes à razão de 1.300 por dia. E seus próprios cientistas prevendo que isso irá se decuplicar.

Aqui, porém, estamos sob o comando de um energúmeno que teima, diariamente, em levar seu gado ao brete palaciano, a urrar por curas divinas e comércio aberto sem restrições ao essencial.

Manda-os levantarem-se das trincheiras, desarmados, e abrirem o peito à sorte, ao acaso de não serem atingidos para vender bugigangas, pintar paredes ou consertar canos que já não há quem comprar ou contratar, como a praticar um gesto suicida e sem razão.

Seu principal oficial em comando, o Ministro da Saúde, é ridicularizado, desautorizado e incapacitado a comandar os homens e mulheres da linha de frente, na Saúde.

O pessoal médico, o primeiro a ser atingido, começa a ser derrubado como moscas.

Não nos preparam para a resistência de meses que nos espera, mas impregnam as pessoas por um desejo impossível de uma “normalidade” imediata, ou quase e repetem “abrir, abrir, abrir”, quando a ordem deveria ser a de “protejam-se todos”.

Retardam a ajuda indispensável, o pão que permitiria ficar barricado, brincando de “falta uma MP, falta um decreto, falta uma emenda” e de “vamos lançar um aplicativo”, como se isso fosse um vídeo-game.

São miúdos, pequenos, insensíveis, incapazes perceber que estamos diante de uma catástrofe de proporções inéditas na história recente. Seguem achando que é uma “gripezinha” que matará alguns velhos e inservíveis.

Aqui, de nossas tocas, meu irmão e minha irmã, somos a única força auxiliar de que dispõem os combatentes mandados a morrer – e morrerão aos milhares, também aqui, não se iluda – só há uma forma de lutar, como cada um de você está fazendo, combatendo os fanáticos, apoiando os amigos e mesmo os desconhecidos.

Teremos semanas neste isolamento e pouco vai adiantar, durante este tempo, discutir política ou economia. No próximo post explicarei melhor isso.

Nosso dever, agora é proteger e mantermo-nos protegidos. Falar, falar, falar ininterruptamente, ainda que os ouvidos possam ser poucos e, por vezes, moucos.

O povo brasileiro, embora possam tentar transtorna-lo pelo estômago, saberá ver quem o defende dos que pregam a morte em cima de todos, o dinheiro acima de tudo.

 

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