O editorial da Folha e as escolhas da Folha

A Folha publica agora à noite um forte editorial contra o governo Bolsonaro, que a ameaçou, de maneira bem pouco discreta, com pressões sobre seus anunciantes.

O texto é forte, do início ao fim.

Começa por dizer que Jair Bolsonaro é ” uma personalidade que combina leviandade e autoritarismo”. E que, por isso, “terá de ser contido —pelas instituições da República, pelo sistema de freios e contrapesos que, até agora, tem funcionado na jovem democracia brasileira”.

Não é muito sutil ao apontar as ligações perigosíssimas do presidente com grupos milicianos:

O Palácio do Planalto não é uma extensão da casa na Barra da Tijuca que o presidente mantém no Rio de Janeiro. Nem os seus vizinhos na praça dos Três Poderes são os daquele condomínio.

Questiona o protagonismo imperial de sua prole, ao dizer que a caneta presidencial “não transforma o filho, arauto da ditadura, em embaixador nos Estados Unidos” e que não pode impor os “caprichos da sua vontade e de seus desejos primitivos”.

Nega que seu inconformismo tenha razões econômicas, dizendo – e é verdade – que não é o cancelamento de algumas dezenas de assinaturas de órgãos públicos que interferirá em seu faturamento, e que não teme as pressões sobre o meio dos anunciantes, o que é quase inteira verdade.

Se não resumi bem o texto, ele vai ao final para que você confira.

Dele, porém, gera-se a necessidade de que o jornal se defina – legitimamente, aliás – como um jornal de oposição, justo como é tratado pelo governo.

Nos comentários online sobre o texto editorial, não são poucos os que questionam o fato de que o jornal critique as ambições ditatoriais na política e as defenda no projeto econômico de Paulo Guedes,

Esta é a pedra-de-toque de uma aliança honesta politicamente.

O que quer, afinal, a Folha, ser um”Estadão” de piercing e de brincos?

O que a hora coloca diante de nós não são borzeguins ao leito. Não é um “estuprem-nos com jeitinho”.

Trata-se de demonstrar e convencer que é preciso formar uma frente contra a fascistização da vida brasileira e de entender que os diques das instituições, nos quais a Folha diz apostar, só serão eficientes se forem efetivamente fortalecidos.

E que o monstro só poderá ser detido se suas duas pernas forem atingidas e elas respondem pelo nome de Paulo Guedes e e Sérgio Moro. Deixem-nas livres e o Leviatã nos avassalará.

Há uma única força no Brasil capaz de detê-lo e todos sabem qual é. Não é preciso que façamos dela outro soberano, como Bolsonaro quer ser. Nem a Folha terá de jurar-lhe uma vassalagem jamais pretendida.

Mas o jornal, de papel passado ainda nesta sexta-feira, flerta com a ideia de que é conveniente manter esta força encarcerada.

Já o comparei, mais cedo, à velha imagem de “mulher de malandro” e, agora, vêm à mente as frases célebres de Nélson Rodrigues: nem todas as mulheres gostam de apanhar, as neuróticas reclamam”.

Que a Folha não seja uma destas.

Veja, abaixo, o editorial:

Fantasia de imperador

Bolsonaro é incapaz de compreender a impessoalidade da administração republicana impõe ao exercício da Presidência. Trata-se de uma personalidade que combina leviandade e autoritarismo.

Será preciso então que as regras do Estado democrático de Direito lhe sejam impingidas de fora para dentro, como os limites que se dão a uma criança. Porque ele não se contém, terá de ser contido —pelas instituições da República, pelo sistema de freios e contrapesos que, até agora, tem funcionado na jovem democracia brasileira.

O presidente da República, Jair Bolsonaro, durante solenidade no Palácio do Planalto – Pedro Ladeira-25.nov.19/Folhapress
O Palácio do Planalto não é uma extensão da casa na Barra da Tijuca que o presidente mantém no Rio de Janeiro. Nem os seus vizinhos na praça dos Três Poderes são os daquele condomínio.

A sua caneta não pode tudo. Ela não impede que seus filhos sejam investigados por deslavada confusão entre o que é público e o que é privado. Não transforma o filho, arauto da ditadura, em embaixador nos Estados Unidos.

Sua caneta não tem o dom de transmitir aos cidadãos os caprichos da sua vontade e de seus desejos primitivos. O império dos sentidos não preside a vida republicana.

Quando a Constituição afirma que a legalidade, a impessoalidade e a moralidade governam a administração pública, não se trata de palavras lançadas ao vento numa “live” de rede social.

A Carta equivale a uma ordem do general à sua tropa. Quem não cumpre deve ser punido. Descumpri-la é, por exemplo, afastar o fiscal que lhe aplicou uma multa. Retaliar a imprensa crítica por meio de medidas provisórias.

Ou consignar em ato de ofício da Presidência a discriminação a um meio de comunicação, como na licitação que tirou a Folha das compras de serviços do governo federal publicada na última quinta (28).

Igualmente, incitar um boicote contra anunciantes deste jornal, como sugeriu Bolsonaro nesta sexta-feira (29), escancara abuso de poder político.

A questão não é pecuniária, mas de princípios. O governo planeja cancelar dezenas de assinaturas de uma publicação com 327.959 delas, segundo os últimos dados auditados. Anunciam na Folha cerca de 5.000 empresas, e o jornal terá terminado o ano de 2019 com quase todos os setores da economia representados em suas plataformas.

Prestes a completar cem anos, este jornal tem de lidar, mais uma vez, com um presidente fantasiado de imperador. Encara a tarefa com um misto de lamento e otimismo.

Lamento pelo amesquinhamento dos valores da República que esse ocupante circunstancial da Presidência patrocina. Otimismo pela convicção de que o futuro do Brasil é maior do que a figura que neste momento o governa.

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41 respostas

  1. Quem pariu Mateus que o embale. Quero que Folha, Estadão, Veja, O Globo, IstoÉ, Época, SBT, Record, Globo, Band, Havan, Riachuelo, Marisa e outros fdp mais se explodam. Estes não tem minha audiência e nem meu dinheiro. F*dam-se.

  2. Esqueceram de dizer que ao setor privado é permitido fazer tudo o que a lei não proíbe, mas que ao setor público só é permitido fazer o que a lei determina. Mas a folha é a folha e continua dando uma marretada no cravo e outra na ferradura querendo e fingindo isenção que não possuí.

  3. Esqueceram de dizer que ao setor privado é permitido fazer tudo o que a lei não proíbe, mas que ao setor público só é permitido fazer o que a lei determina. Mas a folha é a folha e continua dando uma marretada no cravo e outra na ferradura querendo e fingindo isenção que não possuí.

  4. Com editorial ou sem editorial, a Folha é um LIXO. Os interesses que ela defende e os motivos pelos quais ela os defende, são muito maiores do que seu amor próprio e do que seu instinto de sobrevivência.

  5. Infelizmente, esse gosta de apanharem-se muito.
    Isso não passa de uma negociação de baixo nível. O país e o que menos importa para ambos.

  6. “Há uma única força no Brasil capaz de detê-lo e todos sabem qual é”.
    Será que há consenso sobre qual seria essa ÚNICA FORÇA ?
    Seriam as “forças ocultas” do Jânio Quadros ?

  7. Caro Fernando, as aspas não nos eximem do machismo, procuremos outras imagens. Cuidado com isso. Seu texto é quase sempre excelente. um forte abraço e obrigado por tudo que nos oferta de força, de luta e de brizolismo.

  8. Não sei se achei mais engraçado o Brito se indagar se a Folha pretende “ser um ‘Estadão’ de piercing e de brincos” (boa, Brito!), ou a própria se considerar “imprensa crítica”! Mais preciso seria “em situação crítica”!

  9. Quer dizer que o sistema de pedir e contrapesos tem funcionado vem até agora? Mas não é mesmo umas publicação canalha que escancara a defesa de si?

  10. QUANTA GENTE INDIGNADA…MAS SERÁ MAIS FÁCIL A DIREITA DERRUBAR ESSE GOVERNO QUE A ESQUERDA.
    OS FRIAS DA PUTA EXPERIMENTAM O DESSABOR DE SER PERSEGUIDO,O ESTRAGÃO COM O CU NA MÃO,A VEJA CORTANDO AGULHA,SÓ A TV ORIENTADORA POLÍTICA DO POVO TÁ TRANQUILA ATÉ A” GROBO” FINGE QUE BATE MAS SE ARREGANHA DE QUATRO PRAS PICAS FASCISTAS.

    1. Estou pasma, Brito: esta mensagem acima, do caçador de passarinhos, não foi censurada; só a minha, em que denuncio o embaixador americano, foi.

  11. “………..as neuróticas reagem”.Imagem perfeita.Agora é chorar na cama,que é lugar quente.A subida dessa gente estranha ao poder teve o dedo da folha.

  12. Estadão de piercing! Moral: tá fraca.

    Mas a Folha tá encaixada certinha com seus leitores: representa bem o pensamento da elite “democrática” que odeia o Lula porque passou uma década vendo o governo petê ser massacrado pelas manchetes e que taria felizaça com o Amoêdo de presidente.

  13. O DCM traz a notícia arrepiante de que o procurador Januário Paludo, classificado pelo Deltan como um dos “pais fundadores” da Lavajato (vem daí a rede de bate-papo deles se chamar de “Filhos de Januário”), segundo diálogo do doleiro Dario Messer com sua namorada, recebia mensalinho de propina pago por ele, Messer. Foi este lavajatista que comentou que “Estão eliminando testemunhas”, quando Deltan falou no bate-papo que Dona Mariza havia chegado ao hospital sem resposta, como um vegetal. Sim, mas a quem o Paludo se referia? Quem estaria eliminando testemunhas? Testemunhas são eliminadas para que não deponham em juízo. Afinal, se Dona Mariza estivesse viva, poderia muito bem esclarecer que estava em negociação com o Léo Pinheiro para realizar uma permuta de seu apartamento simples de 80 m² no prédio de trás no condomínio do Guarujá, quase completamente quitado, por um apartamento triplex de 215 m² no prédio da frente, com vista para o mar, porque quando Dona Mariza comprou o apartamento de trás, não havia ainda perspectiva de construção do prédio da frente para empatar sua vista para o mar. O negócio desta permuta, embora o Léo Pinheiro tivesse realizado reformas e equipado a cozinha do triplex, ainda não havia sido oficialmente fechado, como ficou sobejamente provado. Mas o antigo apartamento simples de 80 m² já havia sido vendido pelo Léo e faltava só ajustar o pagamento da diferença que também não poderia ser uma quantia escandalosamente grande. Pergunta-se quem, segundo o Paludo, queria se livrar de Dona Mariza como testemunha? Quem estaria interessado em que Dona Mariza não depusesse e esclarecesse pontos de sua negociação com o Léo? Por qual razão alguém não queria que Dona Mariza esclarecesse em depoimento como estava realizando esta troca banal? Tem bilhões de caroços embaixo deste indigesto angu. Temos aí um ponto de interrogação do tamanho do Brasil. https://www.diariodocentrodomundo.com.br/paludo-procurador-da-lava-jato-que-teria-recebido-propina-de-doleiro-debochou-de-lula-na-morte-de-marisa-e-do-irmao/

  14. Do que os Frias reclamam?

    Essa quadrilha é fruto de seus desejos!

    Foi isso que acalentaram desde o GOLPE de 2016.

    Uma quadrilha no Poder.

    O infortúnio é do Povo brasileiros, mas quem pariu mateus que o embale!

    Aos infernos Frias, juntamente com a quadrilha que voces desejavam!

  15. o texto estava bom, até chegar à relação machista e velha, com as mulheres, ao final.. Como se demora para limpar isso na cultura….um comentário desnecessário e tonto.

    1. Vera, não me associei ao conceito, em hipótese alguma. Situei-o no tempo passado e de forma reprovável. A expressão existiu, com ampla circulação. Do contrário, vamos acabar naquela de mandar cortar verbetes do dicionário.

  16. Agora a Folha tenta se insurgir contra o tirano que ela mesma ajudou a eleger, não pelo Brazil e seu “povo”, mas devido ao Reich bananal ter ameaçado os interesses econômicos do baronato que a dirige. A folha sim deve uma autocrítica à sociedade, pois desde o início do processo de destruição do país apoia golpistas. Diz que o sistema de freios e contrapesos funcionam na jovem democracia, frase feita e mentirosa, pois todos sabemos que os mecanismos republicamos falharam e degringolamos, a cada dia mais, para um neofascismo escandaloso.
    Faz o discurso pusilânime e engana trouxa de Carmens e Barrosos.

    Insurge contra o autoritarismo, para dias antes apoiar o totalitarismo fascista do sistema judiciário no escandaloso fuzilamento do presideente Lula no TRF4, numa total falta de congruência. Que fique bem claro que a Folha cevou Bozo e sua turma, protegeu o ovo até a serpente eclodir e se voltar contra aqueles que a ajudaram a sair da casca. Quem nao lembra das comparacoes torpes entre um sujeito como Haddad e o desqualificado que hj nos desgoverna, cinicamente, ambos extremistas, dizia a Folha e os demais jornalões apodrecidos. Que isso fique bem claro para a sociedade brasileira que sem a autocrítica esse editorial não vale nada!

  17. Britooooo, com a picanha a 100 reais o natal será um ovo só!
    E alguém vai se preocupar com a Folha que se mostrou de folhetim.
    Que pene e pague!
    E se tiver que voltar que volte com a cara do legítimo povo brasileiro de esquerda.
    Pardo, pobre e digno!

  18. Não é só a Folha que descobriu que deu tiro no pé. Kkkkk Devagarinho até nossos alienados generais descobrirão seus cuturmes furados.

  19. Preço do mensalão do MPR de Curitiba e do juiz associado: R$ 50 mil/ mês, desde o caso do banestado; pagos ao advogado que acabou de ter sucesso no TRF4 por anular sentença da juíza Hardt sob alegação de cópia. Denúncia de Tacla-Durán, que as cortes brasileiras não querem ouvir.

  20. P. I.G.quer dizer: Partido da Imprensa Golpista.
    O presidente do partido é a globo. Os demais são subalternos e/ou vassalos.
    Esse partido é que dá sustentação ao capetão micto.
    É o partido que sequestrou Lula.
    Que ardam no fogo dos infernos!

  21. Apesar de minha críticas ao jornal em questão, por defender os princípios da república burguesa até que tenhamos derrubado o capitalismo, eu me solidarizo com o jornal. Derrubar esse governo é necessário. E apenas um ato de muita força o fará. É necessário concessões, por ora e formação de uma frente ampla para essa força ser construída

  22. Todos os jornais e as merdas das revistas semanais são zumbis putrefatos, existem apenas pelas manchetes que propiciam e s quais ninguem mais perde tempo em ler……..não morrem porque servem a determinados propositos, o estragão, por exemplo, está a venda há mais de uma decada……..quem os financia????

  23. Isso é farsa…
    Esse editorial é fake.
    A Folha é um dos maiores responsáveis pela chegada do bozo ao poder.
    Isso é editorial de vergonha e não de choro….

  24. A Folha amesquinhou-se de tal maneira, tornou-se tão hipócrita, que não vejo nenhuma outra imagem capaz de traduzir-lhe: FHC. Por isso colhe, igualmente, o desprezo dos justos e a cólera dos ignaros. Não sei se vale a pena entrar na defesa desse veículo pois, se findo, não fará falta. E se salvo não cumprirá o papel que lhe seria devido. Que a terra lhe seja leve. Por uma nova mídia, plural e honesta.

  25. Eleitora fiel do bozo a folha só reclama que não é reconhecida pelo papel podre que fez. Só isso.
    Ela ainda aprova o governo do bozo nos papéis do moro e do guedes. É fã do bozo mas está chateada com le pessoalmente.

  26. À Folha de SP.: Vá se fuder!
    À quem interesse possa: Se bozo, (se não for contido), conseguir destinar 2 ministros ao stf, bye bye Brasil!

  27. Os barões da FSP aceitam qualquer opção que signifique o povo bem longe do poder do Estado e do orçamento público.

  28. A elite esquizofrênica emula Bolsonaro, ou, vá lá, é mula de Tróia. O preconceito é muro. Quando a água estiver na altura do nariz, talvez. O editorial abranda o dito cujo e não acusa o avanço sobre os direitos sociais, se lixa. Um lixo desses secos, recicláveis, que se acham melhor do que os orgânicos.”Massa cheirosa”.

  29. agora tratem de fazer oposição, como fizeram com Lula e Dilma e derrubem-no. Já passou da hora da grande midia se unir na oposição.

  30. Repito : FODAM-SE a Folha, Estadão, O Globo e toda a MÍDIA CHAPA BRANCA. Inclusos aí, TV’s, rádios e revistas .
    E a PUTA QUE OS PARIU !
    .

  31. Creio que a Folha e outras mídias, que ajudaram a colocar no poder o atual governante, mesmo tendo este dado demonstrações explícitas e diárias de simpatia a torturadores e regimes autoritários ainda em campanha, não pode agora alegar que foi “iludida” ou enganada, assim como milhares de brasileiros o fazem diariamente. Sugiro à Folha fazer uma autocrítica, haja vista que ela, imprensa, cobra essa atitude de outros segmentos. Folha, dê o exemplo, ou vai ficar no: “faça o que digo, mas não faça o que faço”?

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