O escorpião não enganou ninguém

Laerte Coutinho, como sempre, consegue resumir em uma só imagem o engano – que tem lá os seus propósitos – de que Jair Bolsonaro pode ser manietado e reduzir-se a um governante palatável à democracia.

E isso ocorre porque de Bolsonaro interessa abolir os coices, as ameaças e a grosseria e, assim, aprofundar o que se tornou o “programa econômico” do ex-capitão, pilotado por um desaparecido e desmoralizado Paulo Guedes: demolição do Estado, dos direitos sociais e trabalhistas e venda indiscriminada de patrimônio público.

Há, na direita brasileira, este impasse. Não consegue construir uma alternativa política para que, com democracia formal, possa levar adiante seus desejos e planos de liquidação do país.

A última vez que o conseguiu, dependeu de um choque econômico (o Plano Real) e de uma figura ligada à esquerda, historicamente, Fernando Henrique Cardoso.

Como o sapo da fábula, pretenderam usar Jair Bolsonaro para alcançar seus objetivos, mas não contava – apesar de toda a vida pregressa e estupidez do candidato – que ele fosse capaz de transformá-la em alvo.

Bolsonaro, neste momento, pode ter dificuldade em manejar sua cauda militar, mas o ferrão e a peçonha – que ele nunca escondeu – continuam prontos a inocular doses de autoritarismo letais à democracia.

Não se trata de “inventar” razões para impedir Jair Bolsonaro, o que é absolutamente imprescindível, mas de fazer funcionarem os mecanismos da democracia.

Está mais que claro que ele é, em si, uma ameaça que deveria apavorar a todos, especialmente aos militares: põe em risco a unidade nacional, que se expressa em ódio entre parcelas da população.

Bolsonaro é o que, sucessivas vezes, afirmou ser: um chefe de clã do submundo, um defensor da ditadura, um apologista da tortura, um intratável na política, uma nulidade na visão de país.

Em sua defesa, diga-se que não enganou ninguém politicamente esclarecido.

O sapo deixou-o subir em suas costas por ódio à esquerda e sem ela não deixará de ser ferroado por ele.

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11 respostas

  1. A democracia não é causa, mas efeito, resultado. Ela é o mecanismo de ordenamento e funcionamento da coisa pública. A república pode funcionar bem sem democracia, como efetivamente funciona e funcionou muitas vezes em muitos países. A democracia é apenas uma boa e racional escolha da maioria das pessoas para regrar, gerir o funcionamento do estado. Está atualmente super estimada mais pela direita e pelo neoliberalismo econômico porque o governo bozo está atravancando o andamento das reformas de seus desejos, mas que prejudicam enormemente a população e os trabalhadores. Não se pode acreditar ingenuamente neste surto de “liberdade, direito e democracia” dos neoliberais, imprensa velha e políticos oportunistas que querem uma brechinha na discussão para subir numa caixa de sapatos e deitar falação. Direita e esquerda são mais do que mera filiação a partido político. É estado de alma, questão de personalidade. O que determina a direita são a aquisição, manutenção e ampliação dos privilégios. A direita é vertical. A esquerda se caracteriza pelos direitos humanos, igualdade de oportunidades, inclusão social. A esquerda é horizontal. Democracia é apenas um meio mas se transforma num fim enquanto convém aos abutres que temem perder a sua presa.

  2. Miicianos são assassinos que se fortalecem pela violência e por serem um agente do Estado. Com essa proteção, expandem seus negócios, além da morte encomendada. Para ampliar a proteção aos seus negócios começam a buscar a política. Cada vez mais ampliam as mortes, os negócios e as representações políticas. Crescem e chegam ao planalto central. Um retrato do colapso das instituições.

  3. Já está ficando chato, mas vou repetir: somente tolos da esquerda vão entrar nessa “frente ampla”. Esse vai ser a mesmo erro da Lei da Anistia que foi aprovada e permitiu que ninguém fosse punido e o resultado foi Brilhante Ustra transformado em herói. Já existem elementos mais do que suficientes pro impeachment e até prisão do Bozo, mas querem nosso apoio para desmoraliza- lo na mídia e derruba-lo como fizeram com a Presidenta Dilma para, no fim, contarem para nossos filhos e netos que PT e Bozo “são dois lados da mesma moeda”. Eu não participo disso. Sem revisão da reforma trabalhista e sem anulação do processo criminoso contra Lula, não terão meu apoio.

    1. Política não é apenas desejo e vontade; é, muito mais, desafios a superar e poder de mobilização para barrar tragédias e descaminhos. O momento delicado e trágico exige-nos aglutinar forças sociais, políticas, institucionais e econômicas capazes de suplantar a ameaça do fascismo e dar um outro rumo à vida nacional, hoje polarizada pela extrema-direita. Para quem retroagiu aos tempos de chumbo de 1964, reconquistar a redemocratização dos tempos da Constituição Cidadã será uma grande vitória! Vamos juntos!

      1. @marcoslopesvasconcelos:disqus , vc acredita mesmo que vai ter outro “rumo à vida nacional” quando o Bozo cair? Se não conseguimos colocar as pautas da esquerda neste momento em que, de certa forma, “dependem” de nós, vc acredita mesmo que vai ter concessões por parte de Doria, Huck ou PSDB (o que sobrar dele) quando o Bozo cair? Tudo o que sei é o seguinte: fizeram a “Lei da Anistia” para “voltar à normalidade e dar um rumo à vida nacional” e tudo o que conseguiram foi transformar Brilhante Ustra em herói. Eu estou realmente cansado disso… de “acordos entre os de cima”. Mas, é assim no Brasil desde o primeiro dia. Só acho ingenuidade achar que o país vai ser outro sem o Bozo porque fica parecendo aqueles que achavam que o dólar ia chegar a 2 reais quando a Dilma caísse (como se isso fosse a coisa melhor coisa a acontecer no país). Quando o Bozo cair, vai cada um pro seu lado. Entretanto, a direita sempre vai ter o capital e a falta de solidariedade do brasileiro ao seu lado. Claro que vai ter uma concessão ou outra, mas o essencial vai se manter: a política de desigualdade social.

  4. Para a direita brasileira não interessa justiça social e muito menos desenvolvimento autônomo. O desenvolvimento que ela deseja é aquele atrelado à pequena confraria mundial de bilionários que se acham o crème de la crème da humanidade, e que marcham céleres para a condição de trilionários, se uma guerra total não os destruir antes pela raiz. A direita brasileira estará muito feliz se conseguir engraxar os sapatos destes bilionários, mesmo que sentada sobre a miséria e a exploração predatória de seu país.

  5. Brito, mais uma vez você é de uma precisão cirúrgica na diagnose do momento político brasileiro. Me considero (perdão pelo erro de linguagem) abençoado por ter você a nos esclarecer, a nos orientar, a nos educar. Muito obrigado!

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