O pior cego é o que não quer ver

O abalo nos mercados mundiais, ontem, assustou, mas não convenceu os especuladores de que os efeitos da crise sanitária na China vai impor uma retração econômica que não é destas que se resolverá de uma semana para outra.

O gráfico da Universidade John Hopkins, aí em cima, mostra que a epidemia está muito longe de ter alcançado seu pico e, ao contrário, incrementa o número de atingidos em taxas acima de 50% ao dia, apesar das medidas de isolamento – impensáveis no Ocidente – de mais de 50 milhões de pessoas na áreas mais vulneráveis.

Mesmo que não e espraie internacionalmente – ou, pelo menos, fora do Sudeste Asiático – vai dar um tombo na demanda chinesa por importações, tanto pela queda do consumo quanto pela queda da atividade industrial.

O leitor deste blog observou que, desde o final da semana passado deu-se uma atenção ao caso que só ontem a grane imprensa passou a dar, em função da derrubada de quase 4% na Bolsa.

As comparações com a epidemia de Sars, em 2002/2003 são inservíveis: a China não era nem a sombra do que é para a economia brasileira.

Hoje, é provável, salvo pelo surgimento de uma “notícia forte”, vai ensaiar-se alguma “recuperação”, provocada apenas pela oportunidade de “comprar barato”.

Este é o vício – ou a natureza – do mercado especulativo, mas não há nada, no mundo real, que dê amparo ao “wishful thinking” de que o pior já passou.

Trata-se, porém, de nosso maior mercado de exportação e da maior fonte de investimentos em infraestrutura de que dispomos hoje. Compras e investimentos chineses, é claro, vão diminuir, embora continuem a ser os maiores por aqui.

Justo na hora que, em matéria de divisas estamos sem alternativa senão a queima de reservas nacionais, duramente acumuladas na era dos “malditos” governos petistas.

Ontem, registrou-se aqui a repetição de déficits na balança comercial. No campo financeiro, até o dia 22, registrou-se uma perda de R$ 11,3 bilhões no mercado secundário de ações, o que antecipa uma perda mensal na ordem de R$ 15 bilhões, quando janeiro terminar, o que é, apenas no primeiro mês do ano, um terço de tudo o que saiu no ano passado.

Sem projeto próprio e sem avanços no consumo – veja aqui a análise de Luís Nassif sobre o desempenho da indústria – estamos “pendurados” na entrada de capital.

E o capital internacional, ao menos neste primeiro semestre, está em quarentena.

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4 respostas

  1. E pensar que em um outro contexto, de foco na reindustrializacao do país, esta eventual queda de exportações de primários para a China e de sua produção industrial poderiam dar um gás interno na nossa indústria.
    Fico impressionado como a bola está quicando na frente do Guedes (juro baixo, dólar alto, capacidade ociosa alta, mao de obra ociosa alta) e mesmo assim ele nao chuta por pura ideologia. Uma porrada em investimento público em infra já bastaria pra botar o país a crescer uns 4% de novo.
    Minha esperança era que o Bolsonaro desse um pé na bunda do Guedes e colocasse isto em prática. Mas ele é burro demais pra perceber isso e, aparentemente, os Mourao e Helenos da vida também.
    Vai ficar pro próximo presidente.

  2. Realmente, o cenário é desolador para a perspectiva de gerar o tal crescimento.
    A elite tecno-política e econômica no comando das agências estatais, tais como o Banco Central, Ministério da Economia, Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Ciência e Tecnologia, Educação, Integração Nacional, BNDES e demais secretarias que deveriam se ocupar da retomada do crescimento econômico não tem a menor noção de como sair da cratera da crise que com as próprias mãos eles foram cavando desde que a hegemonia neoliberal alt-right tomou conta do núcleo decisório do Estado brasileiro, movimento iniciado já no segundo governo Dilma, confirmado pelo Golpe de 2016 e a interpretação neoliberal do crime de responsabilidade.
    Austeridade, eles nos dizem, enquanto vivem nas orgias.
    Austeridade!
    Contenção dos investimentos em saúde, educação, moradia, saneamento, iluminação pública, deixem que os mercados resolvam. Deixem que o deus-mercado vai prover.
    Vale tudo do empregado para o trabalhador.
    Quebra dos sindicatos.
    Criminalização das organizações da sociedade civil.
    Criminalização dos movimentos de luta pelos direitos humanos e civis.
    Destruição de empresas de engenharia e construção civil no brasil.
    Sucateamento do patrimônio público e desativação do conjunto de políticas públicas com alguma orientação para o crescimento e o desenvolvimento.
    Paulo Guedes, Castello Branco Neto, Roberto Campos Neto, os velhos e os neovelhos neoliberais autoritários no comando estão conduzindo a nau da economia brasileira rumo ao paredão. Não tem a menor noção sobre como gerar crescimento, a não ser o mantra do mercado proverá.
    Em nome da austeridade e de acabar com a herança maldita do petismo, retiraram investimentos em saúde e proteção social. Como, então, reagirá o país à crise sanitária mundial provocada pelo coronavírus?
    Como os neoliberais não tem a menor noção de público, da importância daquilo que é público e comum para nossas vidas, sobre como o comum impacta nossas vidas privadas (como no exemplo da ordem do dia, nos temas de saúde obrigatoriamente pública, necessariamente comum como epidemias e doenças transmissíveis) e de como os investimentos públicos são fundamentais para gerar uma sociedade com padrões mínimos de bem estar, rumamos abobalhados rumo ao paredão de pedras.
    Brazil, too big to fail?
    De fato, estamos sendo sustentados pelas reservas criadas pelos “petralhas” (adeus Fundo Soberano) e pela expectativa de entregar ainda mais o patrimônio público brasileiro. Esses dois assets, mais a redução das taxas de juros lastreados pelos fundos públicos, formam os recursos para o moral hazard que os neoliberais no governo usam para manipular e esconder da sociedade a real situação da queimada e combalida economia brasileira.

  3. “O pior cego é aquele que não quer enxergar, o pior surdo é aquele que não quer ouvir, e o pior idiota, é aquele que, além das opções anteriores, infelizmente não é mudo, para NÃO falar besteiras”. Fora Bozo e equipe!

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