O que o passado nos diz sobre o futuro pós-pandemia

A Folha publica hoje um estudo da Fundação Getúlio Vargas prevendo que, no Brasil, a pandemia dobrará o desemprego.

É provável que sim, no primeiro mês e meio de sua instalação entre nós.

Mas logo e logo, suspeito, mais que isso.

Embora nosso governo venha fazendo o que pode e o que não pode para que, mesmo à custa de milhares ou dezenas de milhares de mortes, o país volta à “normalidade”, não há mais normalidade para a qual voltar.

Durante um tempo indefinível, todos os que podem retrair-se o farão.

Totalmente, como estamos agora, e parcialmente como ficaremos por meses quando a curva (cuja aceleração está escondida por aqui, veja no próximo post) achatar e tivermos apenas centenas ou dezenas de casos por dia, como vinham nos dizendo que tínhamos.

Não haverá “retomada” pós-vírus. Sequer uma recuperação lenta, como a da China, que sugere ter levado quase a zero a incidência de novos casos de coronavírus, o que não acontecerá aqui antes do final do ano.

Tal como no isolamento antivírus, o que se poderia fazer é “achatar a curva” do empobrecimento geral da massa trabalhadora, formal e informal.

O aumento dos gastos públicos, se teimar-se em fazê-lo pontual, vai nos colocar em impasses potencialmente caóticos.

Como, por exemplo, tirar a “renda básica emergencial” dos 40 ou 50 milhões de miseráveis que, com sorte, passam a recebê-la nos próximos dias?

Como pretender que as empresas – mesmo as que não demitem agora – não reduzam seus quadros de funcionários daqui a um ou dois meses? Que empresário – mesmo os poucos que alcançam créditos – vai continuar se endividando para manter a folha com baixíssimo faturamento, se voltar a ter algum?

E o que falar de empresas de transporte, hotéis, empreendimentos de lazer e de turismo, que vão ter de emagrecer drasticamente se quiserem atravessar meses – talvez mais de ano – de clientela minguada?

Repita-se até cansar, esta crise não é como a de 2008, no sistema financeiro, que não sentiu e não vai sentir fortemente – salvo na especulação – seus efeitos. Ela não se dá no mundo dos bens e das propriedades, pois como aquela maldita “bomba de neutrons” dos anos 80 – que ainda deve andar por aí – destrói pessoas e mantém intacto o patrimônio.

Quanto mais cedo tomarmos consciência que esta crise é tão ou mais recessiva que a grande crise de 1929 e que dela, como ensinaram Keynes e Roosevelt, só se sairá com a retomada de um estado forte, capaz de induzir emprego, produção e consumo.

O “New Deal”, todos sabem, calçou-se num ambicioso programa de obras públicas – usinas hidrelétricas, barragens, pontes, hospitais, escolas, aeroportos – em que o governo investiu algo como meio trilhão de dólares, em valores de hoje, reduziu a jornada de trabalho (para aumentar o número de postos ocupacionais). Mas também reduziu a autonomia do setor bancário, baixando regras para seu funcionamento, obrigando a dar crédito aos pequenos produtores – pode não parecer, mas a agricultura norte-americana é muito mais de estruturas familiares que a nossa e aumentando a rede de proteção ao trabalho, inclusive pela via sindical, praticamente inexistente e ainda hoje fraca por lá.

Agora, vamos ter um fortalecimento dos estados nacionais, uma nova visão sobre a necessidade de algum grau de autonomia na produção industrial (lembram do “pra quê fazer aqui, se na China é mais barato?), de sistemas de proteção social que eram demonizados e de requalificação e ampliação dos serviços públicos.

Nada de muito diferente das políticas antirrecessivas de quase um século atrás, mas num mundo diferente, globalizado e com novas e indispensáveis preocupações ambientais e com características de competitividade muito maiores, pois fornecedores de matérias primas há, hoje, em muito maior escala.

Um “novo acordo” como este é impensável, porém, por estas bandas, a menos que se aceite – e nossas classes dominantes não o aceitam – que se queira derrubar os santos do altar fiscalista e contracionista que jamais deixamos de venerar nas últimas décadas. Vocês verão que, passadas as cenas dantescas de cadáveres abandonados na ruas e sendo enterrados em valas coletivas, o coro do “corta-corta” vai recuperar a voz que teve de engolir.

Não é um único “mito” que precisa cair.

O processo de destruição do país, posto em marcha desde há seis ou sete anos, cobra-nos, agora, um preço terrível, o de não termos líderes e partidos que possam ser pontas-de-lança neste processo e nem empresas – devastadas pela Lava Jato – capazes de assumir a operação de um programa desta natureza.

Esperemos que, porém, a necessidade seja a mãe da invenção e nos surjam, do caos em que mergulharemos – os meios para a sua superação.

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11 respostas

  1. O que já está aí realmente jogará o país numa estagnação ainda mais dramática do que já estava desde 2015, quando Dilma resolveu ajudar o golpe com Levi. Entretanto se ocorrer a catástrofe que tantos estão prevendo, aí é que o futuro se tornará tão sombrio que é melhor nem pensar.
    Ainda torço muito para que a “convicção” dos que prevêem uma catástrofe não se confirme. A situação dos hospitais é meu termômetro e felizmente, em quase todo o país, ainda não está próxima do caos previsto. Isto apesar da loucura presidencial e da insensatez do povo que está nas ruas.

    1. O problema é que em uma situação onde o isolamento não funciona — como no Brasil, onde pessoas demais estão ignorando os pedidos para ficar em casa — a escalada no número de infectados e mortos segue progressão geométrica. O país pode passar da situação onde os hospitais parecem estar dando conta do recado para uma onde médicos tem que basicamente condenar pacientes à morte, por absoluta falta de recursos para atendê-los, em questão de poucas semanas ou mesmo dias.

    2. Você esta enganado em vários aspectos: A ajuda de Dilma e a situação do caos previsto. Com relação à Dilma, basta apenas que você estude mais a situação daquele momento. Quanto ao segundo, segue abaixo a explicação matemática

  2. 1) “…pode não parecer, mas a agricultura norte-americana é muito mais de estruturas familiares que a nossa”. O Brasil é um dos poucos países importantes do mundo que não fez a reforma agrária, mantendo altíssima taxa concentração da terra nas mãos do latifúndio, ou seja, 44% das terras produtivas em mãos de 1% da população; Os USA a fizeram, salvo engano, ainda no século XIX;
    2) Sinto-me como um morador de Pompeia, comendo, bebendo, passeando e me divertindo enquanto um vulcão, em poucas horas, vai me soterrar com todos os moradores

  3. Fique tranquilo, nossos generais com suas arminhas vão resolver isso. Kkkkk, como tem imbecil nesta país.

  4. Ironicamente, um potencial resultado disso é que a Argentina — único país da América Latina que reúne recursos e vontade política para encarar a pandemia de maneira séria — pode sair dessa crise como a maior influência econômica e, por que não, política e diplomática em toda a América Latina, assumindo o posto que tradicionalmente era do Brasil. E isso porque está sob o governo de esquerda do Fernandes, já que Macri se posicionou publicamente a favor de manter as empresas funcionando — e portanto que não tivesse nenhuma medida mais dura de isolamento — durante a crise.

  5. Pra mim está muito claro como vai ser o mundo pós pandemia, marcado pelo declínio da civilização ocidental, salvo poucas exceções, o que se verá é a ascensão dos estados nacionais fortes e culturas patrióticas de elevado pensamento coletivo Como Russia, China e Irã. A hipocrisia e decadência moral do ocidente, agora vai expor o que realmente são, (fracos). O pior senário é o da américa do sul, onde bandidos empoderados faram as única coisas que sabem fazer; matar, roubar, explorar, num esforço desesperado pra reerguer seu patrão do norte nocauteado.

  6. O que me assusta, em termos de Brasil, é que não não vejo competência, capacidade técnica e muito menos vontade política no governo que aí está para enfrentar o pós-coronavírus. O presidente é um débil mental que aposta no caos e o ministério é fraco, medíocre, completamente despreparado para conceber e aplicar medidas que venham a minimizar a tragédia que se desenha no futuro.

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