Oito semanas para a História

Daqui a exatas oito semanas, as estas horas, estaremos marcando nas urnas o nosso voto nas mais estranhas eleições que já vivi, e olhe que já vivi coisas estranhas em seis décadas de caminhada.

Dizer que são eleições indefinidas é um erro, pois qualquer analista honesto do quadro eleitoral sabe que, não fosse a interferência brutal da máquina do Judiciário, o resultado das eleições estaria definido, com a vitória de Lula e seu regresso ao cargo que ocupou por oito anos, exatamente pela marca que este período deixou.

O argumento que se tem contra ele – esqueça a bobajada dos analistas econômicos de meia-tigela, que culpam a bonança econômica do lulismo como a causa da crise horrenda de hoje – é o de que “está preso”. E está preso porque “recebeu” um apartamento que ninguém prova ter recebido. É uma casca fina de “razão” que só o ódio da mídia sustenta e que seria incapaz de resistir pudesse ele falar, como podem os que se atiram à cata dos votos que ele deixaria órfão.

Nem para eles próprios este ‘argumento’ se sustenta.

Lula sendo retirado das eleições pela decisão de quatro homens – um juiz e três desembargadores, o resto apenas vive o terror da mídia – que seguem a vontade de um sistema de poder e contra a vontade de dezenas de milhões de outros, que desejam outro, diferente.

É por isso que só resta a ele se manter, contra seus próprios desejos pessoais e ao preço de sua liberdade física, candidato a presidente. E o faz para apelar para o único tribunal que lhe dá ouvidos: o povo brasileiro.

Não temos, portanto, eleições indefinidas, temos eleições “interferidas”. Tudo o que não sabemos é se esta interferência terá forças para prevalecer, tamanha é a deformação que pretende impor à livre manifestação popular.

Depende, também, do que acontecerá daqui a oito semanas a forma como acontecerão os fatos inevitáveis que teremos em nove ou dez semanas: a eclosão de mais um espasmo de grandes proporções na crise vivida pelo país, seja quais forem os resultados.

Ninguém que tenha vivido o Sarney com o fim do Plano Cruzado depois de fazer o PMDB vencer em 1986 ou a desvalorização cambial depois do triunfo do PSDB em 1998 pode duvidar que, como então, as estruturas mambembes que nos sustentam na “estabilidade do caos” irão, de uma forma ou de outra, ruir estrepitosamente.

Forçar a vitória eleitoral que não aconteceria será, para as elites dominantes deste país, comer do manjar do desastre e da mentira.

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