Os lemingues não se matam, são levados à morte

Luís Fernando Veríssimo dá-nos hoje outra bela crônica – o que, no caso de LFV chega a ser pleonasmo – sobre os lemingues humanos que vão, em bando, em direção à morte nas aglomerações de bares e praias como os minúsculos primos do hamster que vivem na tundra ártica fariam, num inexplicado rito de suicídio coletivo.

Sem demérito algum para o Veríssimo, o suicídio dos lemingues, porém, é um (ai,ai) mito.

Os bichinhos morrem em massa, sim, quando há explosões populacionais e, quando escasseia a comida, lançam-se em migrações em massa em busca do que possam roer e, se houver um rio ou um despenhadeiro no caminho, não é raro que neles caiam e, talvez daí, nasceu-lhes a lenda do suicídio. Mas o que “resolve” a crise populacional, mesmo, são as raposas e as corujas, que os devoram sem piedade.

Lenda foi bem explorada, aliás, pelos estúdios Disney, que compraram uns quantos lemingues de crianças esquimós para fazer o “documentário” White Wilderness (Deserto Branco) e os jogaram, de uma plataforma basculante cenografada em rochedo, nas águas geladas de um rio na província de Alberta, no Canadá. Ganharam bilheteria e até o Oscar de melhor documentário em 1958.

A história está registrada nos arquivos do Departamento de Caça e Pesca do Alasca e no documentário Cruel Camera, canadense.

No filme, o narrador Winston Hibbler diz que “uma espécie de compulsão apodera-se de cada pequeno roedor e, levado por uma histeria irracional, segue passo a passo numa marcha para uma marcha que os levará a um destino estranho. Eles se tornaram vítimas de uma obsessão – um pensamento de uma só via: Siga em frente! Siga em frente!”.

Não é que, pelos fatos mais do que pela lenda, Veríssimo começa ter razão no que diz sobre a “Geração Lemingue”?

Uma insuspeitada vontade de seguir o contemporâneo que passar por perto com claros sinais de que vai se matar e de ir atrás dele com todo o bando para morrer também. O que mais impressiona nos bandos que enchem as praias a caminho do mar e as calçadas dos bares é sua alegria. Sem máscaras e sem distância um do outro.
Os lemingues estão nas ruas. Se há mesmo uma crise internacional, uma pandemia viral que grassa no planeta sem controle à vista, o problema não é deles. Afinal, que crise internacional é essa em que o presidente de um dos países supostamente mais afetados por ela não acredita nas medidas recomendadas para detê-la? Bolsonaro & Filhos se comportam como se ele também fosse um lemingue, jovem e sem compromisso com a realidade.

Como os lemingues da Disney, alguém os coletou para serem personagens desta cena, alguém lhes tirou o sentido de sobrevivência, alguém os colocou numa plataforma basculante, cenografada de prazer e de fantasias de felicidade e os está despejando precipício abaixo, embriagados numa estranha infusão de egoísmo, hedonismo e açaí na tijela.

Mas isso é coisa para a ironia fina do Veríssimo.

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