Os números de um vírus que migrou para os pobres

Ontem, escreveu-se aqui que a epidemia do novo coronavírus, que começou com pessoas das classes mais altas que viajaram ao exterior, migrou, sensivelmente, para os mais pobres.

Hoje cedo a Globonews mostrou números da Fundação Getúlio Vargas que expressam, sem sombra de dúvidas, como as mortes, agora aos milhares, recaem sobre os mais pobres e com muito mais crueldade.

Reparem que, no gráfico acima, não é do número de casos do que se trata. Se fosse, seria explicável, pelo fato de que os mais pobres são em muito maior número entre a população.

Trata-se, porém, da chance de sobrevivência de uma pessoa que contraiu a Covid-19 fortemente sintomática (que leva, por isso, à internação).

Um paciente de nível de educação superior – portanto, tendendo a ter maior renda – tem três vezes menos chances de morrer (16%) do que os sem escolaridade ou analfabetos e duas vezes e meia menos do que quem tem apenas o ensino fundamental.

De forma menos acentuada, há uma prevalência de mortes entre pretos e pardos sobre os brancos – o que repete o recorte racial da renda no Brasil – e um número apavorante: entre os indígenas, metade dos que são internados, morrem.

É claro que os índices de letalidade do novo coronavírus não se devem a escolaridade, renda ou cor da pele de per se. Mas guardam estreita relação entre o acesso imediato a assistência médica, a suporte hospitalar e, até, ao fato de que parte deles tem acesso a vagas de UTI sem as agruras da fila de espera que se formou nos grandes centros urbanos.

Num país socialmente cruel, até a morte – a grande igualdade humana – é mais cruel com os pobres.

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4 respostas

  1. O vírus não tem preferência de classe social, mas a sociedade capitalista tem.
    Os ricos têm como ficar em casa, têm plano de saúde, tem empregados. Os pobres dependem da ajuda do Paulo Guedes, que mesmo na forma desses minguados R$ 600,00, custa a chegar.

  2. Que horror.
    Damares, wentraub, Paulo Guedes e sua secretária executiva estão se policiando para não dizer que o vírus é coisa de deus, veio para erradicar a pobreza, miséria e analfabetismo.
    É a única política de governo do capetão e do mercado ladrão.
    #foracinicosdepravados.

  3. Fernando,

    Talvez a taxa de letalidade esteja mais relacionada à idade dos indivíduos com baixa escolaridade?

    Considere:

    – Taxa de *escolarização* entre as pessoas de 6 a 14 anos: 99%

    – Taxa de *analfabeitismo* entre as pessoas de 60 anos ou mais: 20%

    Os jovens tem mais chance de sobreviver e escolaridade que os idosos; mas esta correlação não implica causalidade.

  4. Sobre o efeito da pandemia sobre os mais pobres, verifica-se que os desmandos praticados por governantes afetam por demais a estes desafortunados.
    As notícias de que o governo do Rio pagou/empenhou 850 milhões de reais para construção de 8 hospitais de campanha em que apenas um funciona e mesmo assim com apenas 20 respiradores e de maneira precária nos deixa indignados.
    Ainda mais se fizermos uma simples conta de dividir. Se dividirmos o valor destinado (850 mi) pelo valor de uma diária UTI na rede particular com preços para o governo, que é em torno de R$ 2.400,00 dia, teremos um número de 354.166 diárias, ou seja, 1000 diárias de UTI por um ano.
    Repito 1000 diárias de UTI por um ano. E já prontas para o uso. Isso incluindo pessoal e suprimentos.

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