Reabrir as escolas? Política pública sem público?

Com visões opostas, “especialistas” discutem se as escolas devem ser reaberta, com argumentos que merecem ser ouvidos.

A discussão, porém, é totalmente inútil, por várias razões.

A primeira delas está expressa na pesquisa Datafolha: 79% das pessoas ouvidas disseram que elas devem ficar fechadas.

O que significa que uma parcela muito expressiva dos pais e mães não as mandará de volta às aulas, se elas recomeçarem.

E isso é, em grande parte, resultado na perda de confiança nas orientações das autoridades públicas, bisonhas e até mentirosas no enfrentamento da pandemia.

Só agora se concluiu, na cidade de São Paulo, o primeiro inquérito sorológico na população infantil, depois de muitas “marcações” e “desmarcações” de reinício das aulas.

O resultado foi espantoso: 16% das crianças já tinham tomado contato com o vírus e pouco menos de dois terços destas (ou perto de 10% do total) de forma assintomática.

Extrapolados estes índices para toda a população escolar brasileira, seria como imaginar 5 milhões de crianças e jovens contaminados, servido de vetores da doença para outros e para suas famílias.

Esse, o lado do perigo. Mas há o lado de eficácia de uma decisão, no mínimo arriscada, sobre isso.

Não existe um rol de exigências definido nacionalmente, para que estados e municípios só reabram escola segundo padrões mínimos de precaução.

Não há possibilidades para as escolas mais populares, pelo número de alunos por sala e sem instalações alternativas – quadras cobertas, ginásios, pátios ou áreas de recreação – espaçosas o suficiente, para que possam dar distanciamento entre as crianças, algo já por si muito difícil.

As aulas via internet, que jamais tiveram um esforço centralizado nacionalmente de produção de conteúdo e material de apoio, com um Ministério da Educação incapaz de dar à TV Escola o papel de ferramenta deste suporte aos professores, meio que entregues ao “cada um faz o que puder, se puder”.

Alguns alunos tiveram alguma coisa, muitos tiveram bem pouco e outros, que nem com internet contavam, tiveram nada.

E assim será com uma eventual volta física às escolas, nas quais não será raro observar uma evasão de 20, 30% das crianças e jovens.

Portanto, vai se aumentar a desigualdade no desenvolvimento escolar, que já é imensa.

Educação, como qualquer política pública, depende, por óbvio, da mobilização e da credibilidade públicas.

O antigo ministro da Educação dedicava seu tempo a atacar os chineses e o STF. O atual, ao que parece, encontra mais tempo para a tele-evangelização que para a tele-educação.

As atividades letivas podem voltar, trazendo riscos e incertezas. Só uma certeza se terá: a preparação de nossas crianças e jovens, que já era ruim, vai ficar pior.

 

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