Temer deixa o caixão político no cangote de Bolsonaro

O episódio chocante do ex-presidente Michel Temer baixando, como um espírito, para salvar Jair Bolsonaro da encalacrada em que se meteu no Sete de Setembro é uma comédia trágica que só no Brasil poderia acontecer.

Fala-se muito na humilhação de Bolsonaro e no seu ímpeto, apenas refreado, de novas aventuras.

Mas ainda há perplexidade diante do fato insólito de um golpista esquecido aparecer para curar o atual golpista das machucaduras de uma tentativa de submissão dos demais poderes.

Michel Temer, o esquecido, saiu das sombras para, trazido como um curandeiro mágico para Brasília, com direito a um vaidoso desfile num avião presidencial – ele próprio fez questão de exibir a cena no embarque glorioso nas redes sociais – e a comportar-se com nenhuma discrição, mandando vazar ou vazando ele próprio ser o autor da carta em que o presidente abjura de si mesmo e promete ser “um bom menino”.

É desimportante que o texto tenha um capricho bolsonariano em estampar, ao seu fecho, um “Deus-Pátria-Família”. E menos ainda que, sendo um “compromisso de Bolsonaro” devesse levar como título aquele famoso “é verdade este bilete” que viralizou na internet.

O fato novo é que Temer saiu do opróbrio em que se encontrava para mostrar-se como o homem capaz de domar Bolsonaro e trazê-lo, pela orelha, a pedir desculpas – ainda que pela metade – pelos palavrões que dissera em casa de família.

A partir de agora é o “guru do homem” e o grande santo padroeiro das instituições.

Some Ciro Nogueira, Arthur Lira, General Ramos, Fernando Bezerra, o centrão inteiro e o que mais quiser e não terão um décimo da interlocução com o presidente da República que Temer agora ostenta publicamente.

E Michel, claro, vai cobrar por este papel. E o saboreira: não é pouco para alguém que, a última vez em que esteve nas manchetes foi sendo preso, por ordens do “Moro Carioca”, Marcelo Bretas.

Embora pareça ironia chamá-lo de “personagem novo” na política, bem que dele se pode dizer elemento ressuscitado no jogo sucessório e não necessariamente para sustentar Bolsonaro, mas para apoiar-se nele para arquitetar seus próprios planos.

Quem foi o rei do Centrão está ansioso por recuperar a majestade.

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