Um governo que não sabe o que fazer da crise

Nada é mais adequado a uma situação de crise do que ser realista.

E muitos não estão sendo.

Não é possível discutir crescimento do PIB, porque isto não haverá, o que está em pauta é apenas é o quanto e como ele irá encolher.

Sim, é preciso tomar medias emergenciais duras, mas é igualmente necessário planejar o que fazer com o saldo de milhões de desempregados e empobrecidos que remanescerá desta crise.

Roosevelt, nos anos 30, fez de seu New Deal a forma de absorver os milhões de norte-americanos desempregados pelo crash da Bolsa, em 1929. Estradas, represas, ferrovias, tudo o que exigisse uso intensivo o trabalho humano passou a ser prioridade.

Até agora não se ouviu falar de planos – e levam meses para saírem do papel – de retomada das milhares de obras públicas paralisadas, que estão à intempérie. Temos os recursos: nossas reservas cambiais, que não podem ser torradas, como estão sendo, na missão impossível de deter o dólar.

É mais do que urgente que se forme um fundo com parte delas para financiar atividades que gerem emprego e não deixar que se esvaiam para “salvar o mercado”. Não se pode evitar que empregos se percam, mas é possível e necessário fazer com que se criem outros.

As medidas emergenciais de alívio mais eficazes são as que desonerem as famílias mais modestas: suspensão, a fundo perdido, das contas de água, energia elétrica e telefonia, até um determinado valor. Pode-se até gravar as contas residenciais de alto consumo, como forma de subsidiar as isenções, em parte.

“Quem tem, põe, quem não tem, tira”, como no bordão do velho personagem de Jô Soares.

Outra coisa inadmissível é que o governo suspenda, como fez, o atendimento do INSS por 15 dias, aumentando ainda mais a fila de milhões de pessoas que esperam por suas aposentadorias. São pessoas mais velhas – grupo de risco – e em geral modestas (90% até dois salários mínimos) que permanecem sem renda e, agora, sem emprego.

Tenho sérias dúvidas de que essa anunciada distribuição de vouchers de R$ 200, anunciada pelo governo federal, vá ser implantada e que seja eficaz. Exigiria cadastramento e controle, o que é impraticável nas condições de hoje.

Liberar dinheiro para os bancos emprestarem (ou não) pelos seus próprios critérios é outra temeridade. É óbvio que a inadimplência irá saltar e, com isso, o custo do dinheiro, já caro para tomador de crédito, ficará maior. Há uma ferramenta pronta, apesar e tudo o que se fez contra ela, que é o BNDES, que tem um longo e produtivo relacionamento com a pequenas e média empresas, maiores vítimas desta crise.

Há muita coisa a fazer no campo da economia fora do mundo financeiro, que se abala mas não é a raiz da crise, que está na economia real, de bens e serviços que deixam de ser produzidos e consumidos.

Há o que fazer – e isso se afigura impossível – na criação de um ambiente de cooperação ao qual Jair Bolsonaro mostra ser geneticamente avesso.

Por mais que esteja evidente que a sua postura belicista e irresponsável o esteja desgastando, faz parte de sua natureza e limitação mental.

Seu egocentrismo leva-o a situações ridículas, como a de postar, ontem à noite, que “não vai abandonar o povo brasileiro”.

Há muita gente que acha que isso seria, agora, o melhor que ele poderia fazer.

PS. Desculpem se não falo em Paulo Guedes. Este ficou reduzido ao seu tamanho real: inútil, incapaz, insensível e incompetente.

 

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21 respostas

  1. gadovid-17 virus que conduziu o brasil a esse fiasco…..massa de manobra que acabou com o plano real e nossa economia.

  2. Temos os desafios imediatos de sobrevivência tanto à crise econômica como literalmente à pandemia em curso. Mas temos também que começar a falar sobre quem vai pagar o custo da reconstrução do país: estes terão que ser os endinheirados, através de taxação elevada sobre a renda e a riqueza.
    O New Deal de Roosevelt só funcionou porque taxou pesadamente os altos rendimentos (90% para faixa mais alta). Dizia que quem tinha provocado a crise tinha que pagar para o país sair dela.
    A reação foi grande no início mesmo dentro de seu partido. Ele chamou o velho Kennedy (Joseph) e pediu que fosse conversar com os banqueiros (meio em que Kennedy circulava) e lhes dissesse que isso era uma decisão. Roosevelt propunha uma taxação de 100% para a faixa de renda mais alta, que acabou negociando para 90%.
    O liberalismo neo-escravagista implantado por Reagan e seguido por todos os presidentes americanos posteriores representa a restauração do poder daqueles a quem Roosevelt havia se imposto, e a destruição do estado de bem estar social em proveito de um punhado de gananciosos e aventureiros operando no sistema financeiro.
    No Brasil, é preciso também discutir a encampação da banca privada, para submeter o sistema financeiro ao esforço de reconstrução nacional. Poderia-se pensar em deixar fora da encampação as cooperativas de crédito, dentro de um plano maior de cooperativização da economia.

    1. Na Espanha, o primeiro-ministro anunciou a estatização de hospitais privados, para fazer frente à demanda por leitos. Enquanto isto, o Brasil propõe várias medidas de auxílio…para empresas e privatizações! Acho que o passo mais importante nunca se realizará por aqui, a modificação profunda da visão de mundo da maioria. Os anos e anos sob jugo autoritário, menos ou mais truculento, mas sempre sob a máxima “manda quem pode, obedece quem tem juizo”, moldaram uma sociedade fadada a dividir-se entre estas duas posições.

  3. E pra arrematar vem o eunuco acusar a China de guerra biológica.Essa quadrilha precisa ser alijada do poder e presa urgentemente se não na papuda em um manicômio judiciário.

  4. Precisamos de um Governo que fale e o povo acredite. Não como este asno ai!
    Se tivéssemos um governo confiável é claro, poderíamos estar sofrendo com esta pandemias, mas seria muito melhor se a situação do trabalhador tivesse um horizonte. Um Governo que o povo confiasse! Mas, este asno nunca trabalhou na vida, Toda vida viveu a tripa forra, pendurado no Estado. Não ia dar certo mesmo, Precisamos de um governo nacionalista e não estes anos que infeta o Brasil. Vejam se é possível um Governo que presta continência a Bandeira americana e diz :Eu amo os EUA. É uma mula manca mesmo, Eu gostaria de encontrar, principalmente o Bolsominius mais radicais e que está desempregado e com a despensa vazia e perguntar-lhe: E ai como está o Bozó????

    1. “””Eu gostaria de encontrar, principalmente o Bolsominius mais radicais e que está desempregado e com a despensa vazia e perguntar-lhe: E ai como está o Bozó????”””…

      Eu tenho um vizinho Bolsominius, ta fudido e ainda defende o COISO….É foidis…

  5. “Desculpem se não falo em Paulo Guedes. Este ficou reduzido ao seu tamanho real: inútil, incapaz, insensível e incompetente.”
    É a verdadeira definição da TCHUTCHUCA.

  6. Li, não sei se é verdadeira, uma frase que Roosevelt teria dito: “Se não houver o que fazer, contrataremos homens para cavar buracos e homens para tapar esses buracos”.
    É um pensamento extraordinário.

    1. Acho que a frase original é do JM Keynes.
      Ele preconizava ainda que o governo contratasse grupos de trabalhadores para que enterrassem dinheiro nas minas de carvão inglesas e outros grupos para desenterrá-lo e entregá-lo à população para que fosse gasto, girando a economia.

  7. Em um momento de expansão do vírus as medidas mais eficazes tem sido de redução do trabalho…..

  8. Os americanos sabem se safar, na hora do estado forte eles vem com o estado fortíssimo. Mas precisa de gente inteligente, sem arminhas e sem canhões. Esses que estão aí só sobrevivem na bonança.

  9. Não há governo. E desde o golpe de impedimento da Presidenta Dilma-digna e honesta!

    No momento há um lunático-ESQUIZOFRÊNICO- acompanhado de três IDIOTAS filhos, ambos com votação significativa, DESTRUINDO o ESTADO e a siciedade brasileira.

    Em 2022 há uma oportunidade para os os 57 milhões de votos IMBECILIZADOS!

  10. Maravilhoso texto. Vc Fernando, sempre muito sensato em suas postagens. Esse parágrafo achei hilário:”PS. Desculpem se não falo em Paulo Guedes. Este ficou reduzido ao seu tamanho real: inútil, incapaz, insensível e incompetente.”????????????

  11. “Quem tem, põe, quem não tem, tira”.
    Não é bem assim. Guedes já prepara o salvamento de bancos.

    Tive que pegar a rodovia Dom Pedro, e o pedágio que é um vetor poderoso de transmissão do vírus através do dinheiro continua bela e folgadamente, cobrando e devolvendo troco que passa para o próximo pedágio e que pode viajar 1000 kms em um dia.

  12. O triste do seu texto é perceber que pessoas comuns, como você e muitos dos seus leitores , conseguimos analisar o meio ambiente à nossa volta, imaginar cenários possíveis e traçar alternativas, planos , qualquer coisa e esse (sic) governo depois de 15 meses ainda não conseguiu fazer NADA!
    Deus tenha piedade de nós.

  13. O triste do seu texto é perceber que pessoas comuns, como você e muitos dos seus leitores , conseguimos analisar o meio ambiente à nossa volta, imaginar cenários possíveis e traçar alternativas, planos , qualquer coisa e esse (sic) governo depois de 15 meses ainda não conseguiu fazer NADA!
    Deus tenha piedade de nós.

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