Vírus e vaidades

Sábado modorrento, a Folha ocupa sua manchete com uma história- que, de tão ridícula, dá bem ideia do ridículo que, faz tempo, tomou conta da nossa Suprema Corte, ao contar os bastidores do “covidário” que teria se tornado o STF após aquilo que já chamei aqui de “poço de vírus”“, a festa de posse de Luiz Fux na presidência do Tribunal.

Diz-se ali que há mal-estar entre os servidores e ministros pela insistência de Fux em fazer uma cerimônia presencial, com direito a canapés e bons vinhos a seguir, para comemorar o sic transit gloria mundi de sua ascensão ao trono, digo eu, à cátedra presidencial da Justiça. E que, para não constranger mais o sujeito que fez um “strike” na Republica., Cármem Lúcia teria ocultado que contraiu a doença, desaparecendo das sessões seguintes de julgamento.

Pouco serve como informação, mas muito pode servir para a reflexão sobre o que se tornou o Judiciário nestes tempos de regressão que, miseravelmente, o Judiciário brasileiro está a viver.

Te tão antigo e dessincronizado com realidade – fenômeno, aliás, não raros nos tribunais, tanto que se chamam “cortes”, como se ainda fossem nobres às voltas com rapapés e majestades, um outro mundo dourado onde se decide a vida dos plebeus – que só me ocorre chamar aquilo de “cafona”, um adjetivo tão antiquado quanto o que se viu ali.

É difícil definir o que foi mais patético ali: se o retrato do pai falecido, mal-ajambrada fotografia emoldurada posta numa poltrona da primeira fila, se a citação esdrúxula de que “consigo enxergá-lo ali” – como se de outra maneira não pudesse sentir a presença paterna. Ou então as citações a seus inspiradores, o judoca Carlson Gracie e o músico Ivanilton de Souza Lima, o Michael Sullivan, devidamente misturados a Platão e a Fagner.

Nada contra os hábitos de vida do sr. Fux, muito ao contrário. Mas não me ocorre que num país que está mergulhado numa crise político-institucional, que arde em meio a um desastre social, econômico e sanitário, opte-se por discorrer sobre suas próprias “virtudes” mundanas, em lugar de focar na defesa das instituições e da democracia.

No filme “Advogado do Diabo”, o demônio, encarnado pelo ator Al Pacino, diz, várias vezes: “Vanity, definitely my favorite sin!” (“Vaidade, definitivamente é meu pecado preferido!”). O nome do personagem é John Milton, autor de uma poema épico chamado Paraíso Perdido, não por acaso.

Mas esta percepção é demais para o nosso presidente do Supremo. O que lhe domina a cabeça é mesmo a falsa aparência, uma versão moderna do que ornava o tope dos juízes nobiliárquicos, pois a nobreza se alcança, hoje, pelo concurso público, como antes pela graça do Rei.

Desgraçadamente, escapa-se mais facilmente da Covid do que da vaidade.

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