Crise no BB não é por emprego, é por eleição da Câmara

Há muita hipocrisia nesta história de que Jair Bolsonaro tenha decidido demitir o presidente do Banco do Brasil pelo anúncio de que o banco lançaria um Programa de Demissão Voluntária para 5 mil de seus empregados e fecharia 112 agências, 7 escritórios e 242 Postos de Atendimento da instituição.

Bolsonaro não pensou o mesmo quando o BB fechou, só em 2019, 409 agências e reduziu seu quadro de funcionários em 3.699 trabalhadores.

É claro que a forma e o momento do anúncio das demissões em massa não podiam ser piores, justo num momento de alto desemprego e de agudização da crise na economia.

Os motivos de Jair Bolsonaro são outros, porém: segundo o Estadão, só no dia seguinte ao anúncio do “enxugamento”, ele teria recebido reclamações de oito deputados contra o fechamento de agências do BB em pequenas cidades.

É claro que a preocupação do presidente é a de perder votos para seu candidato à presidência da Câmara, Artur Lira, mas há razão para reclamarem, sim, porque embora os bancos estejam em intenso processo de digitalização e atendimento remoto, em muitas cidades o banco é a única agência de fomento econômico disponível e para o atendimento da população.

Além disso, internamente a decisão foi vista como um passo na preparação de uma possível privatização de parte do Banco, o que gera muita reação e contraria o próprio discurso presidencial de que o BB estaria de fora do processo de liquidação do patrimônio público.

Em 2019, uma portaria fixou em 105,7 mil o limite de funcionários do banco, em março passado reduziu-o para 102 mil e, em novembro, Paulo Guedes cortou o quantitativo para 100 mil. Só que, no final de 2019, o Banco tinha 93.140 e, com demissões (que foram incentivadas) e aposentadorias, é provável que esteja abaixo de 90 mil, agora. Bem menos que uma instituição de porte semelhante, o Itaú, tinha ao final de 2018: 100,3 mil.

É evidente que a automação dos serviços bancários é algo do qual não se pode fugir, mas a bancarização da população brasileira – o pagamento do auxílio emergencial mostrou o quanto, apesar dos avanços das últimas décadas, a exclusão ainda é imensa -permite que a expansão dos serviços bancários compense a utilização menos intensiva de pessoal.

Há 10 anos, o Banco seguia esta estratégia e inaugurou agências em áreas abandonadas pelos serviços bancários em comunidades como a Rocinha, Paraisópolis, no Complexo do Alemão e na Cidade de Deus.

De lá para cá, cortou mais de 20% das mais de 5 mil agências que chegou a ter.

A queda de 4.83% das ações do banco, ontem, na Bolsa, certamente deram muitíssimo mais prejuízo que qualquer realocação de pessoal.

 

 

 

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email